Ensaiei pra cartão de visita uma cara neutra: a expressão ignorante da lhama e a gravidade soturna da coruja. Uma cara de empregado do mês, de bom moço que toda mãe quer pra genro, ficha limpa, sem antecedentes, ausente do espinho na carne, cara de comercial pra pasta de dente.
Treinei o semblante pra não parecer azedo, "demonstre ao semelhante alegria desde cedo", me diziam lá na igreja, porque a primeira impressão é a que estica, repuxa, estrebucha: e assim a cara fica. "Olhe, ali vai passando um sujeito equilibrado" - não sei se é o que quero que pensem, mas assim penso que me vêem.
Se o inferno são os outros, criei em seus portões um simulacro de céu povoado de anjos-álibis, que mataram o réu de tanto tocar trombeta e quedaram desocupados, deprimidos de asinha caída, caídos mas ainda anjos, daí desequilibrados. Mas meu equilíbrio não é neutro; em desgraçada simplificação é céu e inferno: céu simulacro, de habitantes desempregados, inferno de diabos sem cara, pois enquanto outros, só lhes vejo da barca o equilíbrio e o desequilíbrio encenados.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Cara
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4 comentários:
Oi, Arthur, tudo bem? É a Jhenifer, que tava com o Rogério no sábado. Dei uma lida geral aqui e gostei muito. Ótimos textos; este, em especial, gostei muito. Pitadas irônicas, e intertextualidade com Sartre... ótimo! Vou lincá-lo ao meu blog!
Beijos!
Olá, Jhenifer! Obrigado pelos elogios. Vou também adicionar seu blog à minha lista. E espero que você e o Rogério não tenham levado muito a sério minhas provocações... Um pouco de polêmica é sempre bom pra animar os churras!
Beijo
Levamos a sério sim, mas não no sentido negativo. E saiba que eu adoro quando as idéias contrárias, que nem são tão contrárias assim, estão a ponto de ebulição.
Um beijo e até a próxima!
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