Como cana nasci e cresci no sertão pequeno
cercado de cana por todos os lados.
Aprendi que o início foi a praça e a igreja
depois dum fim que fora café. A fé e a terra
que se dedicou a uma santa: nasceu
Sertãozinho, crescido na cana.
E pra Sertãozinho crescer, a cana
foi fugindo em distância da praça e da igreja,
cedendo seu sangue, a terra vermelha,
pra gente que trazia sonho de longe: crescer
tal qual cana cresce na califórnia brasileira.
Sertãozinho, querendo ser grande
Mas no fim tão pequeno. Meu Sertão
Tão zinho, pra mim você foi e você é
os canaviais das andanças de moleque…
As folhas da cana que me vincavam cortes ardidos;
o corte do podão sofrido do bóia-fria, que parou de cortar
com a chegada da máquina que não se corta.
Os gomos da cana que eu admirava de tão bem torneados e tão matemáticos;
o trabalho dos engenheiros, dos metalúrgicos, do meu amigo Zé, torneiro mecânico,
pra manter rodando dia e noite as usinas.
A casca dura descascada no dente pra sugar
de cada gomo o açúcar e depois cuspir o bagaço;
os dentes precisos das engrenagens, a energia, as turbinas,
as moendas, as caldeiras, o caldo grosso.
Quanto açúcar, calor e ferro, cristal e aço!
Meu Sertão, Sertãozinho
Só quem conviveu anos com vinhaça
Sabe o que é ser também garapão.
Meu Sertãozinho, Sertão
Só quem respirou anos de fuligem
Sabe o que é ter cana queimando na alma.
Alma de safras e entressafras
Alma entorpecida de álcool,
da euforia de produzir álcool:
política do álcool, pró-álcool, carro a álcool
crise do álcool, febre do álcool…
É tanto álcool, meu Deus, que o tonel transborda.
E paz encontrava em olhar a cana
de cima do velho morrão.
Olhar praquela colcha verde de leves relevos
bordada de fios marrom-vermelhos.
Gigante. Como eu quis ser moleque gigante
pra rolar sobre toda aquela esperança viva e macia.
Meu ser, tão zinho, ser tão.
Mas Sertãozinho,
menos esperança que dinheiro:
açúcar e álcool:
doce euforia
dos italianos usineiros;
das famílias médias italianas o sustento,
dos -ati, -eti, -oti, -ato, -eto, -oto,
dos -agi, -ali, -ani, -eli, -esi, -ini, -oli, -oni
e de tantos outros sobrenomes;
sobrevivência de retirantes do
interior de Minas e da Bahia,
que, em sua maioria, viram
o sonho do ouro verde
se esfriar na bóia-fria
E pra aquecer a lida
sobra o calor e a memória fria
do calor de outros sertões.
Calor e clamor.
Meu Sertãozinho, contudo, não
É o clamor de vidas severinas.
É apenas meu sertão pequenino,
aquele das lembranças de menino.
Por isso, quando me perguntam:
O que você é?
Sertanejo?
Sertaneiro?
Sertanense?
Eu digo,
Sou sertanezino.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
segunda-feira, 7 de abril de 2008
pérolas aos porcos
Lá pelos idos de 1998, quando ainda morava em Sertãozinho, estava numa tarde a ler o evangelho de Mateus quando parei no versículo dum discurso de Jesus em que se encontram essas palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos estraçalhem”. Fiquei vidrado na imagem dos porcos e das pérolas e, por motivos que não se explicam, comecei a esboçar uns versos que dialogaram com o “Autopsicografia” de Pessoa. O poeminha, meio manco, ficou assim:
Os porcos bem sabem o que
fazer com as pérolas. Eu
sinceramente não o sei,
mas sei que não vou chafurdar.
Vivo a fazer de versos um colar
para nunca me caber no pescoço.
Moço, quando você vai aceitar
que viver assim é um triplo desgosto?
Fingir o que sente e também
senti-lo pra ser não mais que vintém,
vitrine das jóias de porcos,
seu malfadado artesão do mau gosto!
Alguns anos depois, talvez 2002, vasculhando trabalhos de tradução de poesia, tive a surpresa de encontrar no site do Augusto de Campos uma transcriação de um poema de e. e. cummings que tem o mesmo trecho bíblico das pérolas e dos porcos como intertexto. A surpresa serviu para me colocar no devido lugar, ao constatar serem os trabalhos desses dois poetas que tanto admiro bem mais sofisticados que meu poemeto. A seguir, coloco a versão do Augusto de Campos e seus comentários sobre seu processo criativo, além do poema original:
Os porcos bem sabem o que
fazer com as pérolas. Eu
sinceramente não o sei,
mas sei que não vou chafurdar.
Vivo a fazer de versos um colar
para nunca me caber no pescoço.
Moço, quando você vai aceitar
que viver assim é um triplo desgosto?
Fingir o que sente e também
senti-lo pra ser não mais que vintém,
vitrine das jóias de porcos,
seu malfadado artesão do mau gosto!
Alguns anos depois, talvez 2002, vasculhando trabalhos de tradução de poesia, tive a surpresa de encontrar no site do Augusto de Campos uma transcriação de um poema de e. e. cummings que tem o mesmo trecho bíblico das pérolas e dos porcos como intertexto. A surpresa serviu para me colocar no devido lugar, ao constatar serem os trabalhos desses dois poetas que tanto admiro bem mais sofisticados que meu poemeto. A seguir, coloco a versão do Augusto de Campos e seus comentários sobre seu processo criativo, além do poema original:
"Pérolas para Cummings" Translation
The poem "pérolas para cummings" (English: pearls for cummings) was written in homage to E. E. Cummings' centenary in 1994. Its language is Portuguese. In the original setting the image of a pearl replaces the letters "o" and (in the last line) the letters "r" and/or "u". Converted into simple types (with an "o" instead of a pearl) it reads:
quem
o
tivo
olev
o
uavi
verj
o
gand
opér
o
lasp
arap
o
ocos
Portuguese: (in conventional form): "Que motivo o levou a viver jogando pérolas para porcos (para poucos)?"
English: "For what reason you passed your life throwing pearls before swine [for the few]?" In Portuguese, the word "porcos" means "swine", and the word "poucos", "the few", so that the changing of just one letter or "pearl" allows the shifting of meaning.
—Augusto de Campos
domingo, 6 de abril de 2008
Contrinatório
a raiz
denuncia
água e terra
fatídicas
medidas
este chão
por um triz
não é via
nem de regra
ou facção
ali se faz
sentida
imperatriz
a guria
Alice mas
ninguém nega
com razão
a extinta
flor-de-lis
que ela entrega
só não quis
serventia
da estrita
devoção
de um país
que dá bom-dia
co’a mão em merda
crônica
pra quem diz
alegria, alegria
denuncia
água e terra
fatídicas
medidas
este chão
por um triz
não é via
nem de regra
ou facção
ali se faz
sentida
imperatriz
a guria
Alice mas
ninguém nega
com razão
a extinta
flor-de-lis
que ela entrega
só não quis
serventia
da estrita
devoção
de um país
que dá bom-dia
co’a mão em merda
crônica
pra quem diz
alegria, alegria
terça-feira, 1 de abril de 2008
Invocação
Mote:
Em viagem pro Ceilão
Conheci a musa antiga
Que me rachou a moringa
Com um pau de macarrão
Voltas:
Desde então perdi o prumo,
Minha nau indo sem rumo,
E, sem mais razão, doidinho,
Dou um pulo n’água rindo:
Ai, Tágide sem censura
Vem aqui me dar um banho,
Qu’esta vida cá está suja
Da pureza mui de antanho.
Salga já este corte aberto,
Ô musa, louca varrida.
Canta, rebola e me atiça,
Mas ao fim me bate forte.
Em viagem pro Ceilão
Conheci a musa antiga
Que me rachou a moringa
Com um pau de macarrão
Voltas:
Desde então perdi o prumo,
Minha nau indo sem rumo,
E, sem mais razão, doidinho,
Dou um pulo n’água rindo:
Ai, Tágide sem censura
Vem aqui me dar um banho,
Qu’esta vida cá está suja
Da pureza mui de antanho.
Salga já este corte aberto,
Ô musa, louca varrida.
Canta, rebola e me atiça,
Mas ao fim me bate forte.
domingo, 30 de março de 2008
quadrinha da gata
sexta-feira, 28 de março de 2008
bichos da terra II
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
(Camões)
Ô tatu bola, por que
tu se enrola agora se
tu se enrola agora se
já passou a hora
de se entocar?
Esconde-se onde?
redondo ontem
girou pra longe
do seu lugar
lá na panela
nela ferveu
cozeu pinguela
até não mais
carne quebra-dente
doente na pança
pra tarde vingança
ainda que quente
Foi tatu e não
deixou tu de ser
tatu na fuga e
fogo na gamela
e mesmo na goela.
Esconde-se onde?
redondo ontem
girou pra longe
do seu lugar
lá na panela
nela ferveu
cozeu pinguela
até não mais
carne quebra-dente
doente na pança
pra tarde vingança
ainda que quente
Foi tatu e não
deixou tu de ser
tatu na fuga e
fogo na gamela
e mesmo na goela.
- foto: espetáculo do Cirque du Soleil em São Paulo
quinta-feira, 27 de março de 2008
bichos da terra I
as Estrelas e o Fado sempre fero,
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.
(Camões)
se você fosse uma minhoca
em brejo qualquer de encontrar
de barro úmido e pastoso seu
tudo, seu mundo, escorregando
túneis imprecisos, sem pressa.
se você fosse uma minhoca
caminho de anéis encarnados aqui
e ali minhocando destino
de osso lavrado em desatino
desdentado de geofagia.
se você fosse uma minhoca
genealogia geral de unigenitores, terrígeno gerador de indiferentes
semelhanças, gerações perpétuas
de individualidade genérica.
se você for uma minhoca
termina
onde nunca deixou de ser
começo
além de pó,
nada conhece
enterrada em vida, nunca
terá da morte
sentença.
fotos: instalação de Eduardo Frota (2001)
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.
(Camões)
se você fosse uma minhocaem brejo qualquer de encontrar
de barro úmido e pastoso seu
tudo, seu mundo, escorregando
túneis imprecisos, sem pressa.
se você fosse uma minhoca
caminho de anéis encarnados aqui
e ali minhocando destino
de osso lavrado em desatino
desdentado de geofagia.
se você fosse uma minhocagenealogia geral de unigenitores, terrígeno gerador de indiferentes
semelhanças, gerações perpétuas
de individualidade genérica.
se você for uma minhoca
termina
onde nunca deixou de ser
começo
além de pó,
nada conhece
enterrada em vida, nunca
terá da morte
sentença.
fotos: instalação de Eduardo Frota (2001)
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