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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CANÇÃO NOTURNA



Girl in a white dress, Lucien Freud, 1947

Naquela manhã de sábado, fora de seu costume, ela sugeriu timidamente um hino durante o louvor — a meia hora de cânticos que mantinha os membros ocupados até o início da sequência litúrgica do culto. O moço que conduzia a música esticou o pescoço, apontando o ouvido, não tinha escutado, a irmã repetisse, por favor, um pouco mais alto. Ela resvalou ligeira e alternadamente as mãos suadas na saia — onde estava o lencinho? —, as mãos úmidas, frias, a ponto de pingar durante o martírio dum trivial cumprimento, quanto mais na insensatez de abrir a boca em público.  Puxou então ar, no afã de a voz lhe sair mais segura, e repetiu "483, Rude Cruz". Num sorriso pronto, recurso de jovem líder, a fim de disfarçar a má vontade com tal canção de ritmo lento, arrastado, o rapaz alisou a gravata puída e soltou "ótima escolha", e ligeiro encontrou a página entre o maço apoiado na estante retrátil. O ruflar das folhas misturou-se ao das asas assustadiças de pombos lá fora. Mas os irmãos tinham que transigir com a lentidão da organista, que molhava o indicador na pontinha da língua e apertava os olhos gastos, caçando a partitura. Não tinha mais ninguém que tocasse instrumento, então era preciso ainda acompanhar os acordes malfeitos, a falta de compasso, as notas intermináveis ao som nasalado e sombrio do órgão elétrico, de algum modo conferir uma réstia de harmonia àquele punhado de vozes que tentavam acompanhar a música canhestra. Irrompia o agudo de algumas senhoras, em ondas de taquara, vozes esganiçadas, contrastando com o murmúrio dos homens, em grave tom abaixo, quando não completamente fora do tom. E Marlene se unia ao lamúrio, a letra de cor, "levarei eu também minha cruz/Té por uma coroa trocar", com o olhar fixo no teto manchado de infiltrações, talvez procurando nos borrões negros, esverdeados, um sinal, a almejada mensagem dos céus de que enfim chegava o momento.

A igrejinha fora erguida em meados da década de 1950, e quase nenhuma mudança desde então. Algumas demãos de tinta, um reparo nos bancos, uns pares de telhas trocadas, o mínimo. No bairro, era apenas mais uma igreja de crente, em meio aos vários salões alugados nos últimos anos pras dezenas de denominações. Não angariavam novos conversos como as outras; faltava o êxtase pentecostal, o frenesi coletivo, a catarse das línguas estranhas e previsíveis, as músicas com clímax subindo de oitava no refrão, repetido como mantra, até o corpo entrar em transe, aquilo que nomeavam a descida do fogo do espírito santo. Não, não, os cultos ali eram moldados em rito discreto, fleuma, améns cadenciados durante as orações, algo de real decoro e do agrado do altíssimo, como se repetia com orgulho solene. Poucos membros, todos pobres, um ou outro remediado, receita exígua com dízimos e ofertas.  Mas ali estava o povo escolhido de Deus; qualquer dificuldade, inclusive a de manter aquele lugar sagrado, não era prova dessa seleção?

Frequentavam a igreja três gerações de fiéis, a maioria com algum grau de parentesco, e geralmente a ascendência determinava a hierarquia de cargos, distribuídos nos chamados ministérios, cada qual com seu respectivo status e autoridade pra repreender qualquer outro irmãozinho que fraquejasse na fé ou se desviasse da conduta rumo à santidade. Ostentava-se nas pregações e pesados estudos bíblicos um orgulho de, num mundo prestes a ter fim, guardarem a verdade, a única a que qualquer indivíduo, não importando raça, nacionalidade, condição econômica, deveria se submeter se quisesse salvar-se da perdição eterna. E ai daqueles não convertidos até o fechamento da porta da graça.

Marlene era uma fiel de berço. A mãe, dona Eurides, exemplo de fervor e rigidez, imprimira na filha única o temor de Deus, antes mesmo que a menininha compreendesse quem ela era. Eram apenas as duas. Não conhecera o pai, e quase nunca a mãe falava sobre ele; quando surgia, por descuido, o nome dele numa conversa, emendava umas frases feitas, "seu finado pai cavou a própria cova, minha filha; não aceitou a mensagem, perdido pra sempre". Ouvia de terceiros, em fiapos de histórias que buscava alinhavar: Romero fora jovem com pose e ares de artista, cantava sob lona de circo, em botecos, figura de animar a noite, sorriso de fazer as meninas cochicharem, alvoroçadas, entre risinhos, reivindicando a exclusividade dos olhos azuis semicerrados. E, entre pares de oferecidas, Eurides como escolha pra morar no aluguel duma casinha de fundos. Onde a mãe o teria conhecido? Como despertara a atenção do rapaz trigueiro? Que artimanhas, segredos de mulher, ela tivera na juventude? Impossível. Não conseguia pensar na mãe como figura sedutora, que exalasse qualquer convite à carne. Pra ela, sempre a imagem sisuda, os lábios finos irremediavelmente rachados, as poucas roupas de tons sóbrios, terrosos, cobrindo todo o corpo; os cabelos, que já lhe deviam chegar quase aos pés, sempre no coque, envolto numa redinha. Mas era fato que, ao lado de Eurides, num ano qualquer, há quase três décadas, Romero parecia ter tomado rumo de homem responsável; deixara pra lá a bobagem de artista, alugara uma portinha comercial onde tocava uma tinturaria, lavando e engomando camisas e ternos de gente importante da cidade. Trabalho de gente honesta, e sem depender de patrão. Porém, o espírito aventureiro, a frustração silenciosa e crescente, mais a bebida, esta sobretudo, o conduziram errante numa noite pela estrada, sem dizer adeus, sem dizer palavra, apenas com a roupa do corpo e o dinheiro das contas que estavam pra vencer. Abandonou Eurides — sabia da gravidez? —, caiu no mundo provavelmente como trovador andarilho, cantando em troca de pouso e copo cheio, até o excesso e a estrada minguarem a voz e, segundo o desfecho da fábula, enterrado na capital.

Não houve outro homem na casa. Quase trinta anos desde a partida daquele que, pra Marlene, não passava duma sombra errática, uma sombra a pairar sobre o conhecimento possível a respeito da mãe, a cristã fervorosa, inclemente, criatura à imagem do deus belicoso do velho testamento. A nova Eurides despontara quando, durante a gravidez, recebeu a visita duma dupla de rapazes de fora que, ao fim de apresentação convincente, ofereceram um livro com promessas de saúde a partir de plantas. Não venderam o livro, mas a presentearam com um outro que narrava em pormenores o fim do mundo, e retornaram diversas vezes até encerrarem um estudo bíblico completo, arrematado com um apelo de conversão. O momento era propício. Uma luta invisível entre o bem e o mal conferia sentido ao sofrimento e à dor do abandono. Eurides veio a batismo e passou a frequentar a igrejinha recém-inaugurada no bairro. Já experiente na fé, membro atuante na comunidade cristã, ela passou a se interessar muito mais pelo poder divino de consumir a fogo todos os ímpios, pândegos, messalinas, sodomitas, escarnecedores, adoradores de Baal, aqueles gentios despudorados pululando ruas, bares, banheiros de rodoviária, esquinas, quartinhos obscuros, ah, porque isso sim era o dever do onipotente, consumir de uma só vez a babugem demoníaca que escorria do mundo, dever que sobrepujava a benevolência, o desperdício de tempo pra buscar ovelha errante, o avilte em festejar um filho pródigo. "Deus não se deixa escarnecer, minha filha; o juízo está próximo". E debaixo daquele teto, na mesma casinha de fundo alugada,  não se devia oferecer oportunidade pra sussurros do satã. Desde o tempo alcançado pela memória, Marlene tinha que pular da cama ainda madrugada pro culto matinal, resistir a uma hora de orações e leitura de capítulos da bíblia, geralmente concluída com recitação do salmo 91, decorado na marra, tantas palavras difíceis, assim que aprendera a ler. E seguia a rotina de serviços domésticos; primeiro deixar pronta a massa pra mãe enrolar os pães e enfiá-los no forno de barro, cuja lenha Marlene providenciava no favor de limpar quintais vizinhos; não entendia por que encerar seis dias por semana o piso de cimento queimado, sem deixar marca sequer; e então levar os pães de encomenda, antes que esfriassem, aos parcos clientes, sobretudo irmãos da igreja sabedores do sustento das duas vindo disso e da roupa que Eurides lavava pra fora. Na volta, sempre havia ainda muito ofício, roupa pra bater e quarar, feijão pra escolher, o rejunte do piso do banheiro em seu labiríntico mosaico de cacos pra arear, aquele tapete de crochê inacabado, as profecias do livro de Daniel, tão difíceis de entrar na cabeça, e muito joelho dobrado, oração, oração, pra afugentar qualquer atiçamento do inimigo, joelho calejado, coração contrito, nunca o suficiente pra merecer a misericórdia divina...

Não faltava, assim, ocupação a Marlene. Aquela casa não era lugar de indolência. Dona Eurides dizia ouvir, por mérito de tempo e devoção, a voz de Deus e, com a autoridade emanada dos céus, repassava à filha os desígnios do todo-poderoso pra vida dela.

E provações ela teria. A pedra de toque fora providenciada pela própria mãe desde a primeira infância: um baú, que ficava aos pés da cama de Eurides e cuja abertura era proibida. Era a árvore da ciência do bem e do mal. Mesmo sabendo que a chave ficava na primeira gaveta da cômoda, Marlene nunca ousou sequer tocar nela. A mãe sempre soube fazer-se temer.

"Escola, hoje em dia, não é lugar pro povo escolhido, Marlene". Afinal de contas, tudo de que ela precisava pra levar uma vida de fé e retidão, a mãe podia ensinar. A menina então conseguira decodificar as primeiras palavras sob o estímulo duma varinha de bambu, que assobiava na direção das pernas ao confundir, envergonhada de antemão, uma ou outra sílaba. Tão logo pôde converter as letrinhas miúdas dos versículos bíblicos em sons articulados, dona Eurides definiu as quantidades diárias, que a levariam a concluir todos os livros da escritura sagrada em um ano. Sem contar o punhado de salmos que deveriam ser entoados de cor, a qualquer momento, quando a mãe, de súbito, exigisse.

A rua, Marlene a ganhava apenas com finalidade bem clara, no trajeto até a igreja ou por força das obrigações diárias, tão somente o tempo de entregar os pães ou de providenciar a listinha de compras na mercearia. Esse alheamento, a estranheza da mocinha de passo ligeiro, sempre de saia até os tornozelos, cabelos chegando à cintura, instigava na molecada da rua uma necessidade premente de provocar, de segui-la pelo sempre mesmo trajeto, "creeente da bunda queeente", e diante da postura impassível, alguns meninos atentados corriam ao seu redor, esforçando-se em caretas, dedos médios em riste, soltando arrotos seguidos de gargalhadas. Nesses momentos ela pescava em silêncio versículos, "no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo", palavras que lhe garantissem tratar-se de uma afronta invisível, demônios que usavam aquelas crianças pra estremecer uma serva de Deus, testar a força de sua fé, mas ela inabalável, em silêncio altivo, cingida da armadura do senhor dos exércitos, em batalha contra potestades caídas.

As provações da adolescência foram vencidas. Agora, sobrava apenas o desprezo dos vizinhos, que também tinham crescido, e alguns até mesmo engrossavam alguma igrejinha pentecostal pelas redondezas. Marlene era então a solteirona de respeito, vivendo com a mãe.

Ah, mas há caminhos que parecem direitos, e, ao fim, são trilhas de danação. Que força insondável a teria conduzido, num fim de tarde, voltando da mercearia com anil, fermento e sabão em pedra, desviando-se do percurso habitual pra atravessar em atalho o terreno baldio? Sob um por do sol de laranjas e vermelhos, os timinhos do bairro pelejando na várzea. Ela estacou debaixo da sibipiruna, subitamente cativa à visão do movimento de corpos masculinos na diligência malandra pelo domínio duma bola, divididos entre sem e com camisa, e tantas pernas à mostra, volumes entrevistos sob os calções, as nádegas absurdas e tão rijas dum mulato, troncos banhados em suor refletindo contração de músculos, corridas desembaladas de rompante, "marca o cara aí, porra!", um quadril em ginga de vai-não-vai, gritos imponderados, virilidade gratuita, "volta, volta, caralho", como podia aquele rapazinho esguio correr tanto, tanto, sem descuidar da bola a seus pés?, a bola desenhando uma parábola, saltos em sincronia, ombro a ombro, nos limites do retângulo a cal, um salto se destacava, pescoço e cabeça como chicote, a bola desviada com violência de seu curso, a bola passando pelas traves de bambu, "goooool", os sem camisa agora em abraço despudorado, o cabeceador atracado ao magrelo, rolando lascivos na terra batida, um grandalhão enchia a mão com o orgulho dentre as pernas e, sacudindo raivoso, num berro rouco e grosso, "chupa isso aqui, seus fila da puta". Foi então que a estridência dum casal de quero-queros a tirou do estado de entorpecimento em que caíra, "meu senhor, o que to fazendo aqui?", e abalou-se pra casa, com as pernas titubeantes, as mãos trêmulas a segurar com dificuldade a sacola, ondas de achaque assolando o corpo de cima a baixo.

Marlene não era tão tola a ponto de desconhecer os efeitos daquele emaranhado de sensações. Mas o vocabulário que acessava pra dar sentido àquilo lhe provocava terror: concupiscência da carne, lascívia, devassidão. Chegou em casa e correu ao forno à lenha. Havia ali os restos da última fornada de pão. Logo estava coberta de cinzas e as esfregava nos longos cabelos desgrenhados, e não demorou a encher a boca com um punhado, que lhe provocou um vômito ruidoso, dolorido e necessário.

Sim, a mãe estava certa. Era preciso afastar-se do mundo, da babilônia decaída, gastar o corpo no trabalho árduo, sem reservas, e, a todo momento, vigiar e orar, fechando qualquer fresta aos vapores quentes e furtivos do demônio. Só assim haveria paz. Só assim poderia viver na presença da mãe.

Passados meses, Marlene não duvidava mais: tomara o rumo da santidade. A rotina era chão firme. O isolamento, mesmo em meio aos cultos na igreja, era o único caminho para a iluminação. Evitava as rodinhas animadas na porta do templo, não reparava que muitas crianças um dia embaladas em seu colo agora já formavam casais lépidos, cheios de planos. Estava ali para humilhar-se diante da presença de Deus. Estava ali para reafirmar sua pequenez, sua insignificância de mulher vil e pecadora, rogando misericórdia ao Deus de Abraão, Jacó e Isaque.

Mas quando nada acontece, e o tempo se esvai à larga, é de se esperar o golpe repentino das circunstâncias.

Quem quebrou a rotina foi a própria mãe, Eurides. Ela, o relógio da casa, um dia deu de não levantar antes do sol. Marlene dormia num colchonete na sala, preferia deixar o quarto pra mãe, e naquela manhã estranhou: abriu os olhos e a porta continuava fechada, a casa ainda em silêncio, apenas os rumores de fora, pardais e bem-te-vis, um ônibus ganhando a rua, o chiado de vozes no rádio valvulado do vizinho. Não teve coragem de bater na porta, foi fazer o de costume. Cumpriu as orações e leituras matinais. Ajeitou a mesa, preparou o chá de cidreira, tirou as torradas de sempre do pote, e nada de dona Eurides levantar. Foi até o canto de fora onde ficava a janela, pisou as plantas do canteirinho, encostou orelha na veneziana, tudo em silêncio. Voltou à porta, olhou pelo buraco da fechadura, a luz apagada. Decidiu ajeitar a lenha no forno e já tocar fogo pra adiantar o trabalho. 7 horas, e a mãe no quarto. Tinha que entrar. Mas não ousava. Estacou novamente na porta e, passado o tempo suficiente pra sentir as gotas de suor pingando das mãos, admitiu três batidas leves. Sem resposta. Quando, num ímpeto, juntou coragem e apanhou a maçaneta, ouviu o grito de voz áspera e familiar, "Marleeeene".

Na penumbra, Marlene procurou o interruptor pera e clicou. Não se lembrava de ter visto a mãe de cabelos soltos e com roupa de dormir, uma camisola cuja cor original ninguém saberia dizer. Eurides estava sentada no meio da cama, de ombros curvados, braços estendidos sobre as pernas. Ao fitar os olhos da mãe, Marlene encontrou-os desorbitados, estrábicos, bem diferentes dos olhinhos sempre incisivos e inquiridores. Um odor ácido e profundo tomava o ambiente. A roda mais escura no lençol, ao redor da mãe, denunciava urina matinal empapando a cama. Sem tempo de refletir sobre os estímulos sombrios que os sentidos lhe traziam, Marlene ouviu uma ordem, "Me traz um ovo cozido. Já!".

E Eurides não deixou mais o quarto, nem mesmo a cama. Às oito da manhã, ao meio-dia e às seis da tarde, do quarto a mãe gritava ovos cozidos e um copo d'água. Mais tarde, por volta das nove da noite, ela exigia leite adoçado com açúcar queimado, e só. Não adiantava trazer outro prato separado com a comida. E apenas as gemas dos ovos ela comia.

Ainda no primeiro dia, Marlene teve coragem de perguntar, "Mãe, a senhora tá se sentindo bem?", "Cala essa tua boca maldita, sua filha de Jezabel! Tu não vai corromper este lugar santo!". Aturdida pelos gritos, Marlene correu da presença materna e tapou os ouvidos pra não ouvir o restante das imprecações.

Tacitamente, outra rotina foi estabelecida. A filha entrava, absorta como num serviço litúrgico, pra trazer as refeições e esvaziar as excretas da comadre, colocada ao lado da cama. Não se podia abrir janela nem trocar roupa de cama. Os gritos de ameaça da mãe irrompiam duma insensatez que também impõe respeito. Eurides não visitou mais o banheiro ou sequer trocou a camisola rota. A fetidez pronto tomou conta do lugar. Durante o dia longos monólogos ponteados por gritos se dissipavam do quarto pela casa. Na madrugada, Marlene, encolhida no colchonete, passou a ouvir a mãe entoar melodias desconhecidas:

Tinha rendas de Sevilha
A pequena maravilha
Que o teu corpinho abrigava
E eu, eu era o dono de tudo,
Do divino conteúdo
Que a camisola ocultava.

Era certo que logo gente bisbilhoteira viria pra sujar o sossego obtido, ao longo dos anos, com o desinteresse alheio. Já fazia mais de duas semanas o princípio da condição especial de dona Eurides. Primeira vez em anos que faltavam aos cultos. Algum irmão de fé mais antigo, mais por costume que por real interesse, proporia uma visita pra tomar motivos da ausência. Os vizinhos, também, mesmo que indiferentes às duas, teriam a curiosidade atiçada — o sumiço da crente rabugenta, algum pedaço de grito que sobrepujasse a melopeia intermitente de tevês e rádios.

Marlene manteve a entrega dos pães e, taciturna, demonstrando não querer conversa, dizia aos clientes que a mãe estava de repouso pra curar gripe forte. Dona Eurides não gritava mais. Agora resmungava, numa cantilena renitente, pontuada de gemidos graves, que lhe saíam da boca como o ranger duma porta emperrada há muito. Durante a noite, em vozinha afinada, aguda, mas discreta como nunca dantes a filha ouvira, Eurides entoava as canções desconhecidas. Marlene, atraída por uma recordação que não era sua, mas que lhe embalava como um mimo familiar, passou a ouvir atenta, noite após noite, aproximando o colchonete da porta do quarto.

Boneca de trapo, pedaço da vida
Que vive perdida no mundo a rolar
Farrapo de gente que inconsciente
Peca só por prazer, vive para pecar

E foi no meio dessa canção que, numa madrugada absurda de clara, Marlene pegou a tesoura da caixa de costura e, sem olhar espelho, podou sem melindre os longos cabelos, até deixar a nuca à mostra. Em passos leves, ela entrou no quarto, resgatou o baú, enquanto a mãe, um espectro estendido na cama, repetia a canção, como se sua existência se resumisse a uma voz a emitir em letra e melodia uma mensagem que só cabia a Marlene decifrar. Com a chave em mãos, ela ajoelhou-se diante do baú. Ali tão somente uma camisola de renda. Não. Era a camisola guardada para ela, Marlene. Não era uma camisola. Um vestido pra noite. Como já tinha visto em mocinhas lépidas do bairro, nas noites de sexta e sábado, vestidas em tecidos leves que convidam a adivinhar a textura da pele, que profetizam o desejo de despir pra consumar de vez o corpo. Marlene despiu-se pra colocar o vestido. Sentiu-se cobiçada por olhos atrás das paredes. Eurides continuava outra estrofe:

Boneca noturna que gosta da lua
Que é fã das estrelas e adora o luar
Que sai pela noite e amanhece na rua
E há muito não sabe o que é luz solar

Marlene deixou o quarto e fechou a porta. Ao fundo, um fiapo de melodia abafada, ouvida pela última vez enquanto vivesse. Com os trocados que juntou desde aquela manhã inusitada, compraria uma passagem para a capital ou, se não desse, para a cidade mais próxima dela que a grana permitisse. Quem sabe se, nos arredores da rodoviária, não levantava mais uns bons trocados? Quem sabe se, na grande cidade, num inferninho qualquer, não encontrava o cantor boêmio que assoprara as canções da noite nos ouvidos da mãe?

quarta-feira, 1 de março de 2017

OS NEM TÃO NOVOS DISCURSOS DA GERAÇÃO PÓS-YUPPIE

Em "O lobo de Wall Street" (2013), Martin Scorcese traduziu a essência das quase mil páginas autobiográficas de Jordan Belfort, o rapaz que "saiu do nada" e chegou ao 1,5 bilhão de dólares e ao controle de 30 empresas em poucos anos. O investidor Belfort explorou os limites de sua inteligência e utilizou toda sorte de estratégias para tornar sua empresa, a Stratton Oakmont, um prodígio do mercado financeiro. Para tanto, ele reúne fiéis colaboradores eficazmente motivados com cocaína da boa e festinhas com prostitutas de luxo dentro do escritório, onde passam horas a fio. O pó ou os comprimidos de quaalude (droga favorita de Belfort) mantêm o foco no trabalho e os dividendos (além das prostitutas) garantem o gozo da rapaziada engravatada e das (poucas) garotas de tailleur que são admitidas no jogo do sucesso segundo o manual degradado dos novos ricos. Fica evidente que o jogo de compra-venda é pautado na imaterialidade das cifras, apenas quimeras; assim, para dar concretude à fortuna, o grupo vulgarmente se lambuza na opulência, festas em aviões e iates, embaladas por drogas e bebidas caras, afinal de contas, o dinheiro é deles e podem fazer o que quiserem com ele. Contudo, neste caso o castelo de cartas cai, o FBI vai no encalço e revela as falcatruas da empresa (ação narrada no segundo livro, "Caçada ao lobo de Wall Street"). Embora ele seja preso por abusar na ousadia de especulador, não há dúvida de que o perfil de Belfort está bem afinado com a lógica da bolsa. Ele é o cara ideal pra realidade do capitalismo financeiro.

Mas o que pretendo destacar aqui é o perfil de Belfort após sair da prisão, que aparece numa cena no finzinho do filme. Fora do mercado financeiro, ele faz uma leitura da nova realidade e, com seu espírito empreendedor, consegue nadar na grana novamente. O lobo de Wall Street retorna como uma espécie de guru, vestido em roupas mais casuais, pele bronzeada denotando corpo saudável, corpo e espírito prontos para uma palestra motivacional. Com incontestável habilidade linguística (que os não ingênuos sabem se tratar, na verdade, de retórica travestida de conhecimentos cientificamente balizados), Belfort demonstra à plateia hipnotizada como vender uma simples caneta para qualquer pessoa, mesmo que a pessoa esteja convicta de que não quer nem precisa da caneta.

Saindo agora do contexto de livro e filme, Jordan tornou-se de fato um palestrante bem sucedido, inclusive veio ao Brasil em 2015 (os ingressos custaram 3 mil reais e se esgotaram rapidinho). Segundo matérias da imprensa, ele consegue manter o público hipnotizado nas mais de 3 horas de palestra. Resumindo, ele diz que pra ganhar dinheiro são necessários três passos: autoconfiança - justificativa/motivo - ação (muita ação). Está claro, pra mim, que Jordan representa também essa galera da geração pós-yuppie. O pessoal que trabalha 12 a 16 horas tirando energia das porções controladas de "alimentos funcionais" e bebidas pra "alcalinizar" o corpo. Defendem que esse tal almoço brasileiro de arroz com feijão não é apropriado e rouba de 1h30 a 2h de produtividade, isto é, o melhor é fazer um intervalinho de 30 a 45min com nutrientes leves e boa hidratação pra voltar prontamente à atividade. Essa galera se apropria superficialmente de filosofias orientais pra "afastar a negatividade" e manter a mente saudável. Costumam dizer que se alguém está em dificuldade ou meio desanimado no trabalho é porque não se programou nem agiu com afinco pra abrir outras portas. Essa turma faz regularmente faxina na consciência participando de projetos sociais, "doando seu tempo" à caridade, ou desenvolvendo projetos de "responsabilidade socioambiental". Defendem que o Estado deve atuar exclusivamente oferecendo segurança ao cidadão e à propriedade, colocando no devido lugar quem não quer trabalhar e produzir. Através de seus óculos de ética distorcida, veem desigualdades socioeconômicas brutais como resultado natural do mérito. Esse pessoal diz que está preocupado em oferecer ferramentas pra qualidade de vida dos trabalhadores, mas, no final das contas, "it´s all about business".

O perfil de Jordan Belfort, hoje mais um representante da geração pós-yuppie, foi apenas pretexto para afirmar: os lobos renovam sempre suas peles de cordeiro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

TIO VALDIM


         para Adriel Luis Gennaro
e para Paulo Sérgio da Cruz (in memoriam)





         — Quantos palitos de fósforo preciso juntar pro barco, tio Valdo?
         — Tem que contar por caixinha, moleque. Meio milheiro pra caravela. Se você juntar, prometo que faço uma bem da hora, no capricho.
         Não houve caravela. Durante anos nunca juntei os fósforos suficientes. E agora ia ao encontro de quem não podia mais cumprir a promessa. Segunda-feira, meados de novembro de 1998, meu irmão Mateus me ligou no meio da manhã. Acharam um corpo. Provavelmente do tio Valdo, falta confirmar. Meia hora depois, outra ligação, sim, o corpo do tio no pedaço de espuma que fazia de colchão no quartinho alugado. Duas horas de estrada e um turbilhão de lembranças me levariam de volta a Sertãozinho.
         Não tinha como não gostar do tio Valdo. Falava mole, um risinho no fim da frase. Cara de deboche ingênuo. Embora eu não soubesse explicar, percebia nele o gesto solto, de quem não se molda a expectativas. Uma liberdade incômoda pros adultos da família. Desde que me lembro, ignorou a vida séria que meu pai e meus tios rumaram. Todos eles, pobres remediados. E ao caçula coube a vida torta. Pícaro e bufão. Quando lhe falavam de tomar tento, agarrar trabalho de gente honesta, ele desatava gargalhada, revelando o oco liso dos molares.
         Uma foto carcomida era a única lembrança material que tinha do período em que ele cumpriu pena em Araraquara. Tio Valdo era nego-aço — mulato de cabelo sarará aloirado. O risinho esboçado no canto da boca eternizou-se na imagem maltratada por tempo e suor de minhas mãos. Ao fundo, os muros de concreto armado da prisão compunham com o céu cinzento e o uniforme azul esmaecido um clima melancólico, não fosse o sorriso e a estampa dum pêssego enorme no meu moletom.   
         Nunca soube exatamente o motivo da primeira cana. Quando falava do irmão desmiolado, minha mãe era toda censura terna. Tio Valdo sempre tinha dado mais trabalho que os outros. Só cabulava aulas. Tomava gosto por vadiagem. Aos doze anos, por aí, numa briga com moleques na beira do córrego Duas Pedras, acabou levando uma botinada na moleira que o deixou desacordado. Já no hospital, Valdim apenas voltou a si quando colocaram um chumaço de éter pra ele fungar. Da ambulância ao camburão, foi uma questão de poucos anos.


         Cumprida a pena, voltou pra Sertãozinho, e foi morar num quartinho na casa de meus bisavós. Primeira vez que vi imagem de mulher com as pernas arreganhadas foi na porta do quarto dele. Ali organizou um mosaico de pernas, bundas, peitos e bocas convidativas. Ao me flagrar um dia vidrado numa ruiva voluptuosa, ele perguntou se eu já tinha chupado um grelo. 
         — Quê que isso, tio?
         — Sabe não, pirralho? Dropes novo. De vários sabores. Um dia trago um pra você experimentar. Agora vai dar uma volta que o tio aqui vai esticar a carcaça.

          Fim de semana os primos se reuniam pra aproveitar o quintal ponteado de pés de fruta — manga, goiaba, jabuticaba, ameixa, limão, cajá-manga, ciriguela, sem falar da figueira-de-jardim, árvore de fruto proibido. A bisa impunha distância dos figos. Do quarto onde labutava as doenças da senilidade, ouvíamos os gritos do além, imprecando maldição a quem se aproximasse dos frutos insossos. Quão gostoso o sabor da ameaça. Não pelo gosto do figo, mas, hoje desconfio, pelo gosto do pecado original revisitado. Açodávamos, então, uma rebeldia ingênua, enredada por ameaças impraticáveis, mas instigantes ao rompimento do temor mítico que fertiliza a infância.      
         Tio Valdo estava sempre de passagem. Pra jogar uma água no corpo ou trocar o gás do isqueiro ou esvaziar a mochila no quarto. Mas sua presença não passava batida. Chegava fazendo arruaça, inventando apelido novo pra quem ele visse primeiro, depois dava um abraço de tamanduá na minha avó, que sofria de mal de chagas:
         — Amós...Jonas...Samuel...Valdo, tem pena da tua mãe! — confundia o nome dos filhos e o acerto vinha quando só o dele restava —  Meu coração não guenta.
         Diante daquela presença intrigante, como eu era o mais velho entre a meia dúzia de primos, me tocava puxar a potoca sobre o tio vida-torta. A primogenitura me dava mais autoridade na tentativa de explicar a rotina arrevesada do tio Valdim. Daí o estímulo pra forjar histórias, com as quais me envolvia a ponto de acreditar mesmo, trêmulo de excitação.
         — Sabia que o tio toma sopa temperada com maconha?
         Ficava imaginando a sopa preparada todas as noites por minha avó. Sempre o punhadinho de macarrão padre-nosso e algum legume boiando no caldo engrossado com extrato de tomate. Então os olhos matreiros do tio Valdo. E dedos serelepes salpicavam a ervinha do capeta por cima. Que gosto teria aquilo? Na sopa, por quê? De certo, tinha a ver com a canção de mosca e sopa, que ele cantava às vezes no meio do terreirão pra marcar o ritmo no gingado de capoeira. Jogava sozinho. E não queria ensinar pra gente.
         — Professor de rabo de arraia é a rua. Cês é tudo meninão de casa e igreja.

         Tio Valdim fez vida errada. Não é exemplo pra ninguém, relembrava o biso Dito ao perceber o clima de admiração. O que, de fato, ele fazia nenhum adulto nos contava, se é que sabiam. Então fabulávamos mais. Em roda, os moleques que nem tevê tinham em casa enredavam o herói Valdim em inverossímeis aventuras. Ele se correspondia com um tal de João Acácio, preso lá no Paraná, e, por conselho do mentor, tinha queimado fundo todas as pontas dos dedos. Pra aguentar a dor, tinha virado no gluglu um litro da branquinha Pignata. Agora, homem sem digitais. E na mochila não podia faltar uma lanterna de facho vermelho. Também conselho do correspondente. Essa história foi se costurando quando tio Valdim apareceu com as duas mãos enfaixadas, cambaleante, resmungando palavras de boca suja antes de se trancar no quarto.

         Numa quinta-feira à noite, já passava das dez, atendi uma ligação do tio Jonas; nem me cumprimentou e pediu pra falar com meu pai, 'quê? roubou um Verona no Alto do Ginásio?...ladrãozinho safado...bateu? não andou nem três quarteirões?...além de bandido, é burro...tá bom, to indo pra lá'.
         A partir dessa noite tio Valdo ganhou residência nova, a cadeia pública de Sertãozinho, que ficava apenas a alguns quarteirões da casa dos bisos. Fui uns pares de vezes visitá-lo com minha avó. Ali só ficavam os bandidos pé-de-chinelo   ladrões de galinha, bêbados encrenqueiros e outros quaisquer que ameaçassem, de leve, a ordem pública. Os casos mais complicados, homicídio, latrocínio, estupro, tráfico de remonta, iam pra presídios de maior respeito, na região.
         A cada visita, tio Valdo apresentava a galera toda. Me lembro do Graxa, tio do Cosme e Damião, moleques vizinhos de casa. Ele fazia tapetes e barcos de palito. Ensinou tudo o que sabia do ofício a meu tio. Graxa perguntava dos sobrinhos, pedia pra vigiar se não andavam com má companhia. Numa outra visita me deu um jogo de botão improvisado. Os jogadores eram pregos pintados de azul e vermelho, e a bola, uma biloca de gude. Um toque cada jogador. Até hoje me pergunto como eles arrumavam pregos e martelo na cadeia. O punhadinho de presos me fez sentir orgulho de ser sobrinho do "Marrom", goleiro dos bons nas peladas durante os banhos de sol.  Cheguei a acreditar, no exíguo tempo passado ali, que dava pra ser feliz na cadeia. Jogar bola e construir brinquedos sem a obrigação do trabalho. Um outro jardim da infância, talvez. Mas percebia que o sorriso de tio Valdo principiava a despetalar.
         Nesse período, se bem me lembro, a morte levou meus bisos. Sozinha no casarão, a vó arrastava amargura, o ar lhe faltava, e apegava-se às vozes dos locutores dos canais AM, especialmente um Leo Oliveira, que vertia em melodrama supostas cartas de ouvintes. Às vezes, nos fins de semana, Valdim aparecia no quintal. Tranquilo, calado e mais magro. Deixavam que saísse da cadeia. Ficava por lá um pouco, comia, pegava umas frutas, goiaba, acerola, ameixinha, pinha, e voltava.
         Ao concluir dois anos de pena, ele foi ajudar tio Jonas na oficina de funilaria e pintura, onde eu também estava trabalhando meio período. Com meus quinze anos, já passava da hora de trocar o ócio das tardes por uma atividade de moço responsável. Então tio Valdo virou meu companheiro; éramos os únicos moleques do barracão, embora ele já estivesse no meio dos trinta. Não carecia mais inventar histórias. Agora eu podia ser ouvinte exclusivo de fabulação.

         Era desastrado. Tio Valdo era um comédia. Certa feita, enquanto lixávamos um Monza, me contou que, pra comemorar o ano de maior, tinha arranjado um .32 velho e ido lá pros lados de Orlândia, curtir umas grutas famosas naquelas bandas. Cara e tipo manjados, dedo-duro na área, a polícia deu em cima. Escondido numa gruta, armou emboscada e enquadrou os canas, mas enrolou-se todo com a arma. Rodou por lá mesmo, depois transferido pra Ribeirão, finalmente pena em Araraquara. 
         Se o ferro não tivesse enrolado na minha camisa, eu tinha escapado.       
      — Mas ia matar, tio?
      Não, tá doido! — soltando a gargalhada banguela — Só ia dar um susto e zarpar.
         Confessou que sonhava um assalto grande pra arrumar a vida. Só o suficiente pra ir embora, sossegado. Comprar uma casinha caiçara. Dormir e acordar no barulho das ondas. Viver solto feito peixe em água sem fim. Surfista é que era homem livre e feliz. Fiquei apavorado. Se ele fizesse mesmo, seria eu cúmplice? Egoísta, torci pra ele continuar desastrado.
         E tio Valdo continuou na oficina. De vez em quando fazíamos umas traquinagens. Até tio Jonas entrava na onda. Inventaram de andar de bicicleta sentado de costas no guidão. Ficaram os dois uma tarde toda se exibindo. Outra vez, em friagem de junho, inventamos fazer fogueira. Tascar fogo nos jornais usados pra empapelar os carros na pintura e um monte de lixo da oficina. 
         — Aí, Dri, quer ver um negócio maluco? Joga thinner! Vai ver o fogaréu que faz.
         Mandei a lata inteira. Tremi de pavor com a explosão. Tio Jonas me rasgou verbo de bronca, e ele ficou rindo de canto, dizendo pra ser mais ligeiro na malandragem.
         Porém, com frequência crescente, tio Valdo firmava num silêncio que lhe negava a natureza. Lixava um carro inteiro sem falar uma palavra. E mais magro. Uma tossinha que persistia. Devia ser o pó da massa automotiva, o cheiro de thinner e tinta. Estava se alimentando? A vó sempre fazia o simples apetitoso. E dormindo direito? "Depois de cana, moleque, sujeito não dorme, não dorme não, até fechar os olhos de vez. Ainda mais quem virou garoto em cadeia".
         Então vieram as dores, mais fortes, os exames, a sentença: a maldita. Ex-presidiário e aidético. Parte da família cochichava castigo divino. Agora podiam rechear a maledicência com causa e efeito. Minha mãe e meus tios procuravam tratamento. Era uma tal zidovudina, vulgo AZT, e já havia projeto de lei pra distribuição de graça na rede pública. Prolongava a vida, mas exigia rotina regrada. Tio Valdim filtrava o converseiro com sarcasmo. E o Cazuza, que era um baita playboy, não tinha secado até morrer? Fazendo renascer a risada redonda, dizia até gostar da ideia de morrer logo.
         E quem não resistiu foi o coração de minha avó ao chagas. Valdo ficou sozinho no casarão que tinha abrigado três gerações. Logo demoliram tudo. Cada tijolo vendido. O quintal sobrou imenso, uma floresta de fantasmas. Um tio-avô tomou a frente das intenções de vender o terreno. Tio Valdim resistiu. Montou uma barraca, arrumou um fogareiro, e continuou por lá até que o afoito parente avulso jogasse a tralha no córrego ao fundo. Ele não podia ficar ali. Era um empecilho à herança. Resignou-se, por fim, a ir pro quartinho alugado pelos irmãos no alto do Alvorada. Pra ele, apenas um ponto de parada entre as idas e vindas ao engenho pra encher uma pet de cachaça. Tratamento não ortodoxo. Ouvi um médico falando à minha mãe que eram essas caminhadas que o mantinham vivo.
         Sem aviso aparecia em casa. Barba crescida, um fiapo de corpo. Os vizinhos estranhavam o mendigo a quem abríamos as portas. Tio Valdo queria só dormir um pouco. Eu arrumava minha cama pra ele, com carinho, e puxava ao lado um colchonete pra mim, donde velava a horinha rala de sono. Queria que ele descansasse mais. Dormisse dias seguidos. Que ficasse ali com a gente, abrigado da noite tamanha. Mas a inquietude não o abandonava, a fissura de seguir pra parte alguma, e tio Valdo partia, deixando no mormaço opaco o eco duma gargalhada.
Mudei-me de Sertãozinho pra estudar e trabalhar em cidade maior. Mergulhei no marasmo de papéis de praxe, fluxo de caixa e balancetes, vivendo austero do salário que mal pagava a faculdade e as contas básicas. Os dias de rotina sobreposta tendiam a transformar a figura de tio Valdo, antes tão definitiva como forma de sentir a dor do mundo, apenas num pálido enredo de infância e adolescência. A morte dele me trazia à consciência o sepultamento da fase em que a rejeição aos padrões não é rebeldia, mas uma busca ingênua de liberdade, uma liberdade perigosa, centelha que, a olhos domesticados, deve ser apagada, com sopros de sofrimento e vergonha, sob o risco de alimentar uma fogueira a derreter as fôrmas lineares que moldam a vil segurança da tal vida direita e honesta.
         Inundei o fusca de choro e ódio durante a viagem. Como eu podia ser tão covarde e abandonar tio Valdo? Como podia aceitar uma vida medíocre trancado num escritório? Fui pro velório municipal disposto a escancarar hipocrisias. Ah, se encontrasse ali algum dos malditos parentes que detratavam Valdim, o bandido, a ovelha desgarrada, o peco fruto da família... estava disposto a cuspir em caras, quebrar dentes, gritar sujidades no desvão duma coroa de flores.

         Todo meu ímpeto se esvaiu diante do caixão, o barquinho singelo, navegando entre as espumas de margaridas brancas. Barba feita, revelando um outro sorriso, um risinho sereno, como enseada que mantém o mar liso em sua semicircunferência. Aquele sorriso me dizia, com o siso terno da morte, 'Adriano, agora você pode juntar os palitos e fazer o barco sozinho'. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

LUZ QUE ANDA SEM RUMO | Alexandre de Oliveira Martins

              Com Vagalumes sem noite / contos entre sombra e luz, Artur Ribeiro Cruz debuta no que classicamente se denomina gênero narrativo. Poeta de sofisticação atestada por seu “Semanário do Corpo” (2015), obra também de estreia no gênero lírico, Cruz mostra-se igualmente exímio no manejo preciso da contação de histórias a partir de combinação ímpar entre ética, técnica, temática e estética. Embora técnica e estética estejam quase sempre amalgamadas na construção literária, Artur não deixa dúvidas de que é da primeira que emerge a segunda. Por sua vez, as opções temáticas, desenvolvendo dilemas éticos profundos, acabam por definir o ritmo, a cadência e as opções morfológicas e sintáticas realizadas pelo autor no encadeamento e progressão dos elementos narrativos, de maneira especial tempo, espaço e personagens.

            Não por outro motivo, os nove contos que compõem o livro apresentam, por exemplo, distintas e combinadas formas de grafar diálogos: entre aspas e no corpo do texto em “A última ceia”; com o clássico travessão em “Corcel afogueado, ou o périplo de Orosmindo”, “A procura” e “Tio Valdim”; discurso indireto livre mesclado com aspas em “Canção noturna” e “Notas de solidão”; alternância linha a linha entre narração e diálogo aspado no final de “Arquitetura de um voo” e principalmente com linha a linha de diálogos aspados em “O retorno do cavaleiro andante”; por fim, recurso do uso do itálico em “Um sofista”. Cada opção gráfica parece servir de maneira específica ao tema desenvolvido, gerando efeitos estéticos diferentes conforme o conto, mas definitivamente apropriado ao desenvolvimento de cada história. Esse procedimento parece mostrar-se presente nas mais diversas instâncias de análise e apreciação do texto de Artur.

            Os contos aparentam ter em suas facetas visíveis distintas, por exemplo, no caso específico da manifestação peculiar gráfica dos diálogos, o que se observa em sua face invisível, aquela do significado, não, por evidente, a do sentido somente vocábulo a vocábulo, mas a do efeito de sentido advindo da relação entre o tecido semiótico interno a cada conto e a função externa de uns com os outros, entre os nove apresentados, tornando-os, cada unidade, um signo completo e complexo, só percebido se em sua totalidade e se na ludicidade enredada por seus diversos elementos em diferentes camadas do plano da expressão e do conteúdo da obra. O nono conto ironiza essa suposta unidade, mas torna-se ele próprio a 'prova dos nove' de que o livro é um todo organizado, arquitetado.

            A técnica narrativa de Cruz é ainda percebida no controle esmerado, seja para mais ou para menos, tanto da extensão rítmica (fraseado, paragrafação, recursos de oralidade), quanto da modulação temática (variação delicada e cortante do assunto e da perspectiva) e da narração (controle do que o leitor deve ou não saber sobre o que se conta, uso da primeira ou terceira pessoas). Esses elementos, associados ao gran finale de cada conto — incluindo o nono conto, que em si é um gran finale para o livro —, conferem à obra um tom enxuto e exato, nos termos de Julio Cortázar, para quem o conto seria uma luta de boxe vencida por nocaute, diferentemente do romance, vencida por pontos. Os contos deste livro certamente nos nocauteiam. Mas ao modo de Muhammad Ali. Com sutileza, firmeza, intenção, precisão e poesia.
            Formado por sugestivos dois 'versos', sendo o segundo uma espécie de  indispensável aposto do primeiro, o título do livro, como de toda obra bem planejada, em si é uma síntese e metonímia de sua totalidade. De pronto, o primeiro 'verso' (“iluminado” pela grafia em caixa alta) instaura um oxímoro: vagalumes sem noite. O 'verso/aposto' seguinte (contos entre sombra e luz [e não entre luz e sombra]) completa a imagem paradoxal, como se algo (os pirilampos vaga-lumes?) se interpusessem à luz (sem noite), gerando um espaço real mas de transição onde justamente os contos se inseririam.

            Essa imagem advinda do título é decisiva para a fruição das histórias sombrias, mas repletas de luz poética, escritas por Cruz. Ao contrário da estratégia de Poe, Artur acha o tom soturno de seus contos não a partir da criação de suspense narrativo, como à Hitchcock, mas a partir de combinação de diferentes técnicas, especialmente a machadiana (ironia, refinamento, intertextualidade, diálogo com o leitor, mergulho introspectivo, entre outras) e a roseana (efeitos sintáticos, transubstanciação da oralidade, tom místico, ambientação simultaneamente interiorana e universal, entre outras), em constante comunicação com um estilo que se poderia neologizar de 'intercosmos', uma mescla da aguda visão sobre sua cidade natal, Sertãozinho (interior de São Paulo), com o mais cosmopolita olhar sobre a sociedade e o mundo.

            Outra comparação que se faria, imprecisa, por certo, é a de que a leitura de seus contos por vezes poderia literariamente fazer recordar parte da opção cinematográfica de Lars von Trier, com seu Dogville. Em seus contos, Cruz desnuda tanto o que há por trás de muita sombra quanto – e principalmente – o que há por trás de muita luz, ou do estritamente essencial das coisas. Em outros termos, similarmente ao reggae do grupo Ponto de Equilíbrio, Vagalumes sem noite nos recorda que "nem tudo que é negro remete a escravidão" e que "nem tudo que é preto remete ao medo não". Ou que o excesso de luz cega tanto quanto a escuridão, na máxima de Raduan Nassar. Mantido, portanto, o símile sugerido pelo título do livro, não é difícil vislumbrar o caráter positivo da escuridão em termos literais ou figurados. Literalmente quando se observa o que ocorre com os próprios vaga-lumes (insetos), que estão desaparecendo da natureza, entre outros fatores, pelo aumento da presença de luzes artificiais em áreas onde eles se localizam, fato que os impede de utilizar a própria luz para encontrar seu parceiro sexual, comprometendo assim sua espécie. Figuradamente quando as sombras possam ser compreendidas como redenção, a ver nos surpreendentes desfechos dos contos aqui expostos.

            Se Trier, no cinema, opta por um cenário invisível (sem paredes, janelas ou portas), permitindo que o espectador veja os coadjuvantes em seus afazeres longe do foco principal da ação, Cruz, embora pareça também optar por um olhar essencialista, fixa-se no palco principal da ação (e inclui paredes, janelas e portas), desfocando a lente, portanto, da “coxia, camarins e bastidores”, e acentuando os efeitos que as gradações de luz têm sobre o visto e o entrevisto exclusivamente no centro, numa espécie de releitura contemporânea estética-filosófica-existencial de preceitos barrocos. Como se, usando um farol poderoso, desejasse ver não [somente] o objeto iluminado pela luz, mas tudo aquilo eclipsado por esse mesmo objeto. Entretanto, ao contrário do pessimismo das também nove histórias da película Dogville, “Vagalumes sem noite”, ainda que também mostrando a desumanidade que emanaria da humanidade, compõe um quadro à brasileiríssimo e menos determinista da complexidade de viver, seja nas metrópoles, seja no interior do país, seja sozinho ou em grupo.

            Lembrando, pois, umas Fleurs du Mal em prosa, permeia — que o leitor não se iluda — uma melancolia sarcástica por todas as histórias de Vagalumes sem noite, amarradas por um fio isotópico do campo semântico eufórico das luzes (“afogueado”, em Corcel afogueado...; “arquitetura” e “voo”, em Arquitetura de um voo) ou disfórico das sombras (“ceia”, em Última ceia; “noturna”, em Canção noturna; “solidão”, em Notas da solidão), ou ainda — e sobretudo — uma mescla de ambos não só nos demais contos, como no desenvolvimento modulado entre euforia e disforia nas histórias mesmas cujos títulos sugerem apenas um caminho de leitura. Essa opção parece de certa forma repetir literariamente o próprio trajeto etimológico do vocábulo vaga-lume, identificado inicialmente em Portugal por caga-lume, em referência às glândulas luminescentes da parte traseira do inseto nomeado. Por pudor, trocou-se a letra C por V, gerando o significado de 'vagar', 'andar sem rumo'. Vaga-lume seria, assim, o mesmo que “luz que anda sem rumo” (e em plena luz do dia, no caso deste livro). Eis aí um outro traço que parece comum aos personagens das nove histórias aqui apresentadas: igualmente ao inseto, cujo tecido que emite a luz é ligado na traqueia e no cérebro, dando-lhe total controle sobre sua luz, os personagens deste livro, embora possam controlar a 'própria luz', perambulam sem rumo com sua inútil fosforescência diante da aparente claridade da vida, que os invisibiliza. Este livro não teme revolver a escatologia da luminosidade.

            O que há entre a sombra e a luz? Para a Física, no âmbito do princípio da propagação retilínea da luz, em um meio homogêneo e transparente, como o ar, a luz se propaga em linha reta, de modo que a formação de sombra (ausência de luz) e penumbra (região parcialmente iluminada), dá-se quando a luz é obstaculizada em seu caminho por um objeto opaco (todo objeto que não permite a propagação da luz através de si). Metaforicamente, as histórias de Vagalumes sem noite se interpõem nesse locus real mas fugaz, efêmero e contingente que dura o quanto durar a luz ou o quanto permanecer o objeto opaco que a bloqueia. Por extensão, é um livro cujas histórias, na expressão e no conteúdo, alternam-se não dogmaticamente entre a razão e a emoção, entre a poesia e a prosa, entre o clássico e a vanguarda, entre o local e o universal, entre o homicídio e o suicídio, entre a musicalidade e a literalidade, entre a modernidade e a pós-modernidade, entre Apolo e Dionísio, entre a sanidade e a loucura, entre a submissão e a desobediência, entre a infância e a maturidade, entre a ingenuidade e a maldade, entre a solidão e a multidão, entre o ideal e o real, entre a verdade e o sofisma, entre a caridade e a crueldade. Todos sempre em relação dialética.

            O último conto, por seu caráter metalinguístico e irônico, parece revelar o grau de consciência que Cruz tem de sua literatura e da literatura. Aparentemente deslocado do tom dos demais, este derradeiro insinua ser uma reflexão irônica sobre o procedimento construtivo dos anteriores, essencialmente baseados na procura de uma alta elaboração da linguagem e de um aproveitamento máximo dos elementos narrativos tradicionais. É também uma gargalhada metalinguística sobre os rumos pós-modernos da literatura e sua “desconstrução do gênero, dissolução do enredo, busca que não progride”. Na dúvida, Cruz mostra-se competente tanto em uma quanto em outra estética, como bem provam suas nove belíssimas histórias.

            E por isso seu livro merece ser saudado com grande entusiasmo.


            Salve, salve, Artur!


Alexandre de Oliveira Martins é graduado e Mestre em Letras pela UNESP. Graduado em Relações Internacionais e Integração pela UNILA. Doutorando do Programa em Integração da América Latina – Prolam, pela USP.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

QUE ESTEJAS ARMADO | Katiuce Lopes Justino


       Um livro de contos não é uma coletânea. Está longe de ser. Mas, no caso de Vagalumes sem noite, é mais que um constructo arquitetado, é, pois, organicamente tecido como "projeto-projétil", que lança a necessária pólvora da incerteza sobre a condição humana já em seu primeiro estampido, com "A última ceia" e vem recolher a cápsula vazia, espécie de Tao, como na visão de Lao Tsé, em "Um sofista". O vazio cínico de estar nu propositalmente diante da plateia hipócrita. Sintomas de uma racionalidade extrema.

Por outro lado, o da emoção pungente, a memória involuntária daquela cidadezinha qualquer não é apenas uma fotografia na parede, é a própria quarta parede, permeável ao olhar obsceno do diretor / autor: ali está a miséria das interdições sem razão outra que a circunscrição abafada de um quadrilátero cultural do interior de São Paulo. Tal indigência é contrabalanceada literariamente pela riqueza de nuanças que lhe confere o narrador. Este, embora imbuído do cheiro e do gosto locais, é um sem-limites herege, necessário, ímpio, despudorado, mas cuja poesia batiza, expurga, canoniza.

Com influências literárias marcadas por regionalismos de outras gentes e de outros sertões, seu estilo encontra a brecha da inovação na tratativa de costumes tipicamente urbanos, ou seja, aquilo que no ambiente natural rude costuma ser fartura, imensidão e imponência, no horizonte destes vaga-lumes é “a mesa com a toalha vinílica replicando, às dezenas, uma natureza-morta falsa e tropical”.

Quanto à progressão temática, do ponto de vista dos diversos narradores, que se alternam em primeiras e terceiras pessoas, é recorrente a figuração de uma espécie de exilado que, ao recriar o passado, passa por certa formação, lembrando aqui a sensação trazida pelo Bildungsroman – o romance de aprendizagem cunhado na Alemanha.

E é nesse ponto alto que em “Um sofista” o narrador multiplica as máscaras e fala diretamente a seu público, esfacelando em graus ficcionais as diversas camadas com que pode contar um farsante, um prosador ou mesmo um... professor!

Que não vá o leitor enganado de receber desses “quadros interiores” impressões leves em cores tênues da paisagem bucólica de uma Sertãozinho passada a limpo pelo crivo da consciência estético-literária. Se abrires este livro de contos, que estejas armado. Mas se venceres a batalha, verás a iluminação obscura do espírito, na maioria das vezes invisível no clarão cotidiano, que é também uma espécie de vaga-lume triste no tempestuoso palco das relações humanas.

Katiuce Lopes Justino
doutora em teoria literária pela Unesp

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

CALOR, CANA, SOLIDÃO | Chico Lopes


       Vagalumes sem noite é a estreia de Artur Ribeiro Cruz no conto. O gênero, embora encontre dificuldades comerciais enormes num mercado editorial dominado por romances, biografias e livros de apelo raso e fácil, é um preferido dos verdadeiros escritores brasileiros, que o adotam para limar seu instrumento, a palavra, e enfrentar os desafios da narrativa curta para expressar concisa e convincentemente um mundo pessoal que se expõe e desdobra. Entra-se no conto como se entra numa disputa feroz com o xadrez literário: é necessário exprimir o máximo, reduzir personagens e filigranas, ser sim literato, ser sim lírico, mas com a máxima cautela para que a compacta solução não desande e se perca a partida até por excesso de habilidade e recursos.

        Eu conheci Artur como poeta em Semanário do corpo e, praticando os dois gêneros como ele, sinto que há uma afinidade natural entre conto e poesia, visto que ambos aspiram à síntese, aspiram a dizer muito recuperando a magia e a eficácia da palavra bem escolhida e posta no lugar certo para os fins certos.

        Esta, confesso, é uma estreia que me tocou de perto, tendo lido trechos dos contos de Ribeiro Cruz antes que chegassem a tomar a forma definitiva. Começo por “A última ceia”, que, posto no início do livro, já nos dá um panorama do que virá. Conto excelente, traz uma pungente Elen que, estigmatizada por ser filha de uma prostituta e com um filho na barriga, dando-se a homens brutais em meio a canaviais paulistas, sentindo que o encadeamento fatídico de sua vida tende a prosseguir, toma uma decisão.

       Senti uma imensa tristeza, e compreendi a dor de Elen na estreiteza mental de um contexto que conheço bem: o desse interior paulista onde Ribeiro Cruz nasceu (Sertãozinho) e reside (São José do Rio Preto). Entre oceanos de cana usurpadores de uma paisagem que já foi muito mais bonita, orgânica e variada, entre cidades pequenas e médias que se notabilizam por uma atividade comercial intensa e não raro uma total ausência de espírito e cultura, vem o registro lírico, mas sem ilusões, de vidas pequenas, proscritas, esmagadas por preconceitos e limitações que dificilmente podem ser vencidos. A decisão de Elen significará, na verdade, o único resgate possível a uma alma que quer se preservar e preservar, simbolicamente, o frutinho que carrega.

       Sinto perfeitamente o que Ribeiro Cruz pinta: sou de Novo Horizonte, SP, não tão longe de Sertãozinho e Rio Preto, e meus contos, desde muito cedo, procuraram seguir um projeto definido, ainda que sinuoso – registrar esse mundo de modo mais honesto do que o via registrado em geral na literatura brasileira, como se fosse constituído de pequenos paraísos interioranos cheios de “causos” pitorescos e personagens felizes com a vida, de bem com seus opressores seculares etc. Essa visão hipócrita e edulcorada sempre foi favorecida por literatos oficiais, daqueles que, em palanques de feriados municipais, deitavam tudo que conheciam de retórica parnasiana para exaltar do modo mais bairrista possível quimeras do poder e da cegueira. Quis que, nos meus contos, a realidade urbana do país em que vivemos presentemente aparecesse com clareza – para mim, as cidades pequenas e médias do estado de S. Paulo querem ser simulacros regionais da capital metropolitana, adotando, com a globalização, seus procedimentos, injustiças, cafonices, falsos benefícios, shoppings, impessoalidade e solidões. De modo que estou feliz por encontrar em Ribeiro Cruz um cúmplice talentoso e disposto a não fazer concessões a mentirinhas ou meias-verdades complacentes e confortáveis.

         Há nesse cenário um pouco de Paraíso? Sim, claro que há, mas ele não está desprovido da indissociável (e literal) Serpente, como se verá no conto “O retorno do cavaleiro andante”, onde um passeio de bicicleta de amigos, que vão caçar rãs numa Lagoa dos Cavalos, transborda em lirismo descritivo da fauna e flora regionais, mas é subitamente invadido por um senso trágico de realidade, que passeio juvenil algum jamais poderá abolir. As cidades podem oferecer ainda, em suas cercanias rurais, alguma ilusão de passado bucólico, mas oferecem sobretudo “vilinhas verticais” onde personagens como os de “A procura” e “Notas da solidão”, que vão se afundando em isolamento ou relações falsificadas a ponto de chegarem ao delírio ou a se ensimesmarem para sempre em suas pequenas vidas. Nesses prédios (gabados pelos bairristas deslumbrados, que neles veem a feliz realização “caipira” do sonho metropolitano) o que há são solidões contíguas, vidas que se perdem e se anulam, sonhos para sempre sepultados entre um corredor escuro e outro.

        Tenho que destacar um conto que, a meu ver, retrata muito do que vai pelo ar dessas cidades (e talvez de todo o país). É esse exemplar “Canção noturna”, dueto de mãe e filha evangélicas que retrata tanto a repressão sexual que é feita em nome de ideias do Velho Testamento e pregada por pastores interesseiros quanto a verdade universal de que o reprimido não poderá permanecer indefinidamente como tal. Ribeiro Cruz resolve isso captando essas duas vidas, de Marlene e sua mãe, dona Eurides. Já houve entre elas um Romero pai, mas as deixou – era um desses desertores meio patéticos e macunaímicos que, por causa de sonhos nada comuns e uma vontade irresistível de reverter a “normalidade”, parecem atrair Ribeiro Cruz e valer sua simpatia (veremos isso no comovente “Tio Valdim” e no peão Orosmindo, com seu périplo de Minas a Sertãozinho e sua vontade de não ficar em parte alguma). As duas vivem entre rezas e mortificações, até que um dia a mãe amanhece cantando “A camisola do dia”, de Nelson Gonçalves. E virá ainda a debochada “Meu vício é você”, e, claro, Nelson era na certa um ídolo do pai. A canção noturna, feita para o desnorteio, as obceca, e a figura do pai ganha o contorno de uma salvação pelo escape dionisíaco.


      Esta, garanto, é mesmo uma estreia promissora, porque encontrar contos com essa profundeza em livros de estreantes não é tão comum assim. Ribeiro Cruz parece nos oferecer um determinado microcosmo, que conhece muito bem, e dentro dele se move com uma desenvoltura de veterano, lembrando Rosa, Faulkner e outros escritores que captaram, no grão particular e na linguagem regionalizada, algo que vai muito além do pitoresco regional ou dos cartões postais de cidades que gostariam de ser vistas pelo que não são.


Chico Lopes é escritor em vários gêneros (conto, poesia, romance, ensaio) e também tradutor de ficção em Inglês. Tem publicados três livros de contos, dois romances, dois livros de poesia, dois livros de ensaios e um de memórias. Seu romance de estreia, O estranho no corredor, recebeu um Jabuti em 2012. É também pintor e pratica o jornalismo cultural escrevendo sobre livros e cinema.