No vidro da porta-janela, o sol secava marcas gordurosas de dedos. Será que aquela maldita só sabe limpar onde se pisa? Homem sozinho acaso é cego para detalhes da sujeira? Não lhe pago a diária para me incomodar formulando reprimendas. Ela sabia que ele se calava enquanto explodia por dentro. Assim a diarista ia cobrando com altos juros os desmandos das dondocas, a marota. Deixava pêlos e cabelos nos ralos, teias vivendo nos cantos, manchas de excretas no vaso. Essa Lourdes sente-se superior ao homem de meia-idade sozinho. Hã, meia-idade. Meia-vida, meia-morte. Costume besta de se medir tudo. O último cigarro acabara, a cerveja ainda não. Abriu a geladeira e pegou mais uma lata.
Lá de baixo, da avenida, chegavam arremedos de motores. Os olhos flagraram imaginação do interior de um daqueles bonitinhos carros utilitários. Um pai obeso, cabeça lisa e brilhante, uma mão preguiçosa na direção e a outra diligente a tirar um fiapo de carne do meio dos dentes; ao lado, a mulher escondida atrás de óculos escuros tapando metade da cara, gozava e sofria os planos de uma nova cirurgia plástica; dois moleques descabelados no banco de trás, um hipnotizado nos olhões da heroína do mangá, o outro ensaiando reivindicar aos da frente noites com a namoradinha no quarto dele. Não, não, que inferno, porra! Deve haver um real imaginado além desse entremezo familiar. Além da busca obrigatória de prazer e união na churrascaria.
Lembrou-se da família, a algumas centenas de quilômetros dali. Culpava-se por não ter vontade de ligar e conversar com pais ou irmãos nos últimos dias, mas bem a examinando, pensava ser essa culpa nada mais que um atalho fácil para justificar o cumprimento daquela vontade, notavelmente mais sincera. Nas conversas com a mãe ouvia sempre “fica com Deus”, “Deus te abençoe” e respondia automaticamente “amém”, para depois refletir sobre o valor de ter como companhia uma possibilidade de existência (que longe estava de negar) ou a respeito dos limites entre a maldição e a benção, ou mesmo o que vinham a ser elas, tanto para quem as endereça quanto para quem as recebe.
Domingo tem que existir, mas não deveria. Domingo é dia de se reunir, isolando-se em meio a almoços, passeios, piadas, abraços e sorrisos. Ou é dia de se isolar, abrindo-se à dissecação da alegre e insincera vida social. Quem gosta de balança, que a justiça seja feita, e lance aos pratos as medidas do imponderável.
