sábado, 5 de julho de 2008

Num domingo amarelo - parte I

A fumaça dançava sobre o cinzeiro a alegria das cinzas que caíam. A vida é um cigarro aceso fumado por ninguém, concluiu sorrindo da imagem-chavão e ingenuamente niilista. Ainda pôde esboçar mais um sorriso ao pensar nisso como um bom final de história, arremate providencial para uma série de desventuras desconexas, que poderiam frustrar desejos de unidade.

No vidro da porta-janela, o sol secava marcas gordurosas de dedos. Será que aquela maldita só sabe limpar onde se pisa? Homem sozinho acaso é cego para detalhes da sujeira? Não lhe pago a diária para me incomodar formulando reprimendas. Ela sabia que ele se calava enquanto explodia por dentro. Assim a diarista ia cobrando com altos juros os desmandos das dondocas, a marota. Deixava pêlos e cabelos nos ralos, teias vivendo nos cantos, manchas de excretas no vaso. Essa Lourdes sente-se superior ao homem de meia-idade sozinho. Hã, meia-idade. Meia-vida, meia-morte. Costume besta de se medir tudo. O último cigarro acabara, a cerveja ainda não. Abriu a geladeira e pegou mais uma lata.

Lá de baixo, da avenida, chegavam arremedos de motores. Os olhos flagraram imaginação do interior de um daqueles bonitinhos carros utilitários. Um pai obeso, cabeça lisa e brilhante, uma mão preguiçosa na direção e a outra diligente a tirar um fiapo de carne do meio dos dentes; ao lado, a mulher escondida atrás de óculos escuros tapando metade da cara, gozava e sofria os planos de uma nova cirurgia plástica; dois moleques descabelados no banco de trás, um hipnotizado nos olhões da heroína do mangá, o outro ensaiando reivindicar aos da frente noites com a namoradinha no quarto dele. Não, não, que inferno, porra! Deve haver um real imaginado além desse entremezo familiar. Além da busca obrigatória de prazer e união na churrascaria.

Lembrou-se da família, a algumas centenas de quilômetros dali. Culpava-se por não ter vontade de ligar e conversar com pais ou irmãos nos últimos dias, mas bem a examinando, pensava ser essa culpa nada mais que um atalho fácil para justificar o cumprimento daquela vontade, notavelmente mais sincera. Nas conversas com a mãe ouvia sempre “fica com Deus”, “Deus te abençoe” e respondia automaticamente “amém”, para depois refletir sobre o valor de ter como companhia uma possibilidade de existência (que longe estava de negar) ou a respeito dos limites entre a maldição e a benção, ou mesmo o que vinham a ser elas, tanto para quem as endereça quanto para quem as recebe.

Domingo tem que existir, mas não deveria. Domingo é dia de se reunir, isolando-se em meio a almoços, passeios, piadas, abraços e sorrisos. Ou é dia de se isolar, abrindo-se à dissecação da alegre e insincera vida social. Quem gosta de balança, que a justiça seja feita, e lance aos pratos as medidas do imponderável.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

moça, segue o traço

por um cab ­—

aço me cab ­­ —

e o abra — ço

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Cara

Ensaiei pra cartão de visita uma cara neutra: a expressão ignorante da lhama e a gravidade soturna da coruja. Uma cara de empregado do mês, de bom moço que toda mãe quer pra genro, ficha limpa, sem antecedentes, ausente do espinho na carne, cara de comercial pra pasta de dente.

Treinei o semblante pra não parecer azedo, "demonstre ao semelhante alegria desde cedo", me diziam lá na igreja, porque a primeira impressão é a que estica, repuxa, estrebucha: e assim a cara fica. "Olhe, ali vai passando um sujeito equilibrado" - não sei se é o que quero que pensem, mas assim penso que me vêem.

Se o inferno são os outros, criei em seus portões um simulacro de céu povoado de anjos-álibis, que mataram o réu de tanto tocar trombeta e quedaram desocupados, deprimidos de asinha caída, caídos mas ainda anjos, daí desequilibrados. Mas meu equilíbrio não é neutro; em desgraçada simplificação é céu e inferno: céu simulacro, de habitantes desempregados, inferno de diabos sem cara, pois enquanto outros, só lhes vejo da barca o equilíbrio e o desequilíbrio encenados.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Lira Sertanezina

Como cana nasci e cresci no sertão pequeno
cercado de cana por todos os lados.
Aprendi que o início foi a praça e a igreja
depois dum fim que fora café. A fé e a terra
que se dedicou a uma santa: nasceu
Sertãozinho, crescido na cana.

E pra Sertãozinho crescer, a cana
foi fugindo em distância da praça e da igreja,
cedendo seu sangue, a terra vermelha,
pra gente que trazia sonho de longe: crescer
tal qual cana cresce na califórnia brasileira.

Sertãozinho, querendo ser grande
Mas no fim tão pequeno. Meu Sertão
Tão zinho, pra mim você foi e você é
os canaviais das andanças de moleque…

As folhas da cana que me vincavam cortes ardidos;
o corte do podão sofrido do bóia-fria, que parou de cortar
com a chegada da máquina que não se corta.
Os gomos da cana que eu admirava de tão bem torneados e tão matemáticos;
o trabalho dos engenheiros, dos metalúrgicos, do meu amigo Zé, torneiro mecânico,
pra manter rodando dia e noite as usinas.
A casca dura descascada no dente pra sugar
de cada gomo o açúcar e depois cuspir o bagaço;
os dentes precisos das engrenagens, a energia, as turbinas,
as moendas, as caldeiras, o caldo grosso.
Quanto açúcar, calor e ferro, cristal e aço!

Meu Sertão, Sertãozinho
Só quem conviveu anos com vinhaça
Sabe o que é ser também garapão.
Meu Sertãozinho, Sertão
Só quem respirou anos de fuligem
Sabe o que é ter cana queimando na alma.

Alma de safras e entressafras

Alma entorpecida de álcool,
da euforia de produzir álcool:
política do álcool, pró-álcool, carro a álcool
crise do álcool, febre do álcool…
É tanto álcool, meu Deus, que o tonel transborda.

E paz encontrava em olhar a cana
de cima do velho morrão.
Olhar praquela colcha verde de leves relevos
bordada de fios marrom-vermelhos.
Gigante. Como eu quis ser moleque gigante
pra rolar sobre toda aquela esperança viva e macia.
Meu ser, tão zinho, ser tão.

Mas Sertãozinho,
menos esperança que dinheiro:
açúcar e álcool:
doce euforia
dos italianos usineiros;
das famílias médias italianas o sustento,
dos -ati, -eti, -oti, -ato, -eto, -oto,
dos -agi, -ali, -ani, -eli, -esi, -ini, -oli, -oni
e de tantos outros sobrenomes;
sobrevivência de retirantes do
interior de Minas e da Bahia,
que, em sua maioria, viram
o sonho do ouro verde
se esfriar na bóia-fria
E pra aquecer a lida
sobra o calor e a memória fria
do calor de outros sertões.
Calor e clamor.

Meu Sertãozinho, contudo, não
É o clamor de vidas severinas.
É apenas meu sertão pequenino,
aquele das lembranças de menino.

Por isso, quando me perguntam:
O que você é?
Sertanejo?
Sertaneiro?
Sertanense?
Eu digo,
Sou sertanezino.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

pérolas aos porcos

Lá pelos idos de 1999, quando ainda morava em Sertãozinho, estava numa tarde a ler o evangelho de Mateus quando parei no versículo dum discurso de Jesus em que se encontram essas palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos estraçalhem”. Fiquei vidrado na imagem dos porcos e das pérolas e, por motivos que não se explicam, comecei a esboçar uns versos que dialogaram com o “Autopsicografia” de Pessoa. O poeminha, meio manco, ficou assim:

Os porcos bem sabem o que
fazer com as pérolas. Eu

sinceramente não o sei,
mas sei que não vou chafurdar.

Vivo a fazer de versos um colar
para nunca me caber no pescoço.

Moço, quando você vai aceitar
que viver assim é um triplo desgosto?

Fingir o que sente e também
senti-lo pra ser não mais que vintém,

vitrine das jóias de porcos,
seu malfadado artesão do mau gosto!


Alguns anos depois, talvez 2002, vasculhando trabalhos de tradução de poesia, tive a surpresa de encontrar no site do Augusto de Campos uma transcriação de um poema de e. e. cummings que tem o mesmo trecho bíblico das pérolas e dos porcos como intertexto. A surpresa serviu para me colocar no devido lugar, ao constatar serem os trabalhos desses dois poetas que tanto admiro bem mais sofisticados que meu poemeto. A seguir, coloco a versão do Augusto de Campos e seus comentários sobre seu processo criativo, além do poema original:


"Pérolas para Cummings" Translation

The poem "pérolas para cummings" (English: pearls for cummings) was written in homage to E. E. Cummings' centenary in 1994. Its language is Portuguese. In the original setting the image of a pearl replaces the letters "o" and (in the last line) the letters "r" and/or "u". Converted into simple types (with an "o" instead of a pearl) it reads:

quem
o
tivo

olev
o
uavi

verj
o
gand

opér
o
lasp

arap
o
ocos

Portuguese: (in conventional form): "Que motivo o levou a viver jogando pérolas para porcos (para poucos)?"


English: "For what reason you passed your life throwing pearls before swine [for the few]?" In Portuguese, the word "porcos" means "swine",and the word "poucos", "the few", so that the changing of just one letter or "pearl" allows the shifting of meaning.

—Augusto de Campos

domingo, 6 de abril de 2008

Contrinatório

a raiz
denuncia
água e terra
fatídicas
medidas

este chão
por um triz
não é via
nem de regra
ou facção

ali se faz
sentida
meretriz
a guria
Alice mas

ninguém nega
com razão
a extinta
flor-de-lis
que ela entrega

só não quis
serventia
da estrita
devoção
de um país

que dá bom-dia
co’a mão em merda
crônica
pra quem diz
alegria, alegria

terça-feira, 1 de abril de 2008

Invocação

Mote:

Em viagem pro Ceilão
Conheci a musa antiga
Que me rachou a moringa
Com um pau de macarrão

Voltas:

Desde então perdi o prumo,
Minha nau indo sem rumo,
E, sem mais razão, doidinho,
Dou um pulo n’água rindo:

Ai, Tágide sem censura
Vem aqui me dar um banho,
Qu’esta vida cá está suja
Da pureza mui de antanho.

Salga já este corte aberto,
Ô musa, louca varrida.
Canta, rebola e me atiça,
Mas ao fim me bate forte.