segunda-feira, 30 de junho de 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Lira Sertanezina

Como cana nasci e cresci no sertão pequeno
cercado de cana por todos os lados.
Aprendi que o início foi a praça e a igreja
depois dum fim que fora café. A fé e a terra
que se dedicou a uma santa: nasceu
Sertãozinho, crescido na cana.

E pra Sertãozinho crescer, a cana
foi fugindo em distância da praça e da igreja,
cedendo seu sangue, a terra vermelha,
pra gente que trazia sonho de longe: crescer
tal qual cana cresce na califórnia brasileira.

Sertãozinho, querendo ser grande
Mas no fim tão pequeno. Meu Sertão
Tão zinho, pra mim você foi e você é
os canaviais das andanças de moleque…

As folhas da cana que me vincavam cortes ardidos;
o corte do podão sofrido do bóia-fria, que parou de cortar
com a chegada da máquina que não se corta.
Os gomos da cana que eu admirava de tão bem torneados e tão matemáticos;
o trabalho dos engenheiros, dos metalúrgicos, do meu amigo Zé, torneiro mecânico,
pra manter rodando dia e noite as usinas.
A casca dura descascada no dente pra sugar
de cada gomo o açúcar e depois cuspir o bagaço;
os dentes precisos das engrenagens, a energia, as turbinas,
as moendas, as caldeiras, o caldo grosso.
Quanto açúcar, calor e ferro, cristal e aço!

Meu Sertão, Sertãozinho
Só quem conviveu anos com vinhaça
Sabe o que é ser também garapão.
Meu Sertãozinho, Sertão
Só quem respirou anos de fuligem
Sabe o que é ter cana queimando na alma.

Alma de safras e entressafras

Alma entorpecida de álcool,
da euforia de produzir álcool:
política do álcool, pró-álcool, carro a álcool
crise do álcool, febre do álcool…
É tanto álcool, meu Deus, que o tonel transborda.

E paz encontrava em olhar a cana
de cima do velho morrão.
Olhar praquela colcha verde de leves relevos
bordada de fios marrom-vermelhos.
Gigante. Como eu quis ser moleque gigante
pra rolar sobre toda aquela esperança viva e macia.
Meu ser, tão zinho, ser tão.

Mas Sertãozinho,
menos esperança que dinheiro:
açúcar e álcool:
doce euforia
dos italianos usineiros;
das famílias médias italianas o sustento,
dos -ati, -eti, -oti, -ato, -eto, -oto,
dos -agi, -ali, -ani, -eli, -esi, -ini, -oli, -oni
e de tantos outros sobrenomes;
sobrevivência de retirantes do
interior de Minas e da Bahia,
que, em sua maioria, viram
o sonho do ouro verde
se esfriar na bóia-fria
E pra aquecer a lida
sobra o calor e a memória fria
do calor de outros sertões.
Calor e clamor.

Meu Sertãozinho, contudo, não
É o clamor de vidas severinas.
É apenas meu sertão pequenino,
aquele das lembranças de menino.

Por isso, quando me perguntam:
O que você é?
Sertanejo?
Sertaneiro?
Sertanense?
Eu digo,
Sou sertanezino.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

pérolas aos porcos

Lá pelos idos de 1998, quando ainda morava em Sertãozinho, estava numa tarde a ler o evangelho de Mateus quando parei no versículo dum discurso de Jesus em que se encontram essas palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos estraçalhem”. Fiquei vidrado na imagem dos porcos e das pérolas e, por motivos que não se explicam, comecei a esboçar uns versos que dialogaram com o “Autopsicografia” de Pessoa. O poeminha, meio manco, ficou assim:

Os porcos bem sabem o que
fazer com as pérolas. Eu

sinceramente não o sei,
mas sei que não vou chafurdar.

Vivo a fazer de versos um colar
para nunca me caber no pescoço.

Moço, quando você vai aceitar
que viver assim é um triplo desgosto?

Fingir o que sente e também
senti-lo pra ser não mais que vintém,

vitrine das jóias de porcos,
seu malfadado artesão do mau gosto!


Alguns anos depois, talvez 2002, vasculhando trabalhos de tradução de poesia, tive a surpresa de encontrar no site do Augusto de Campos uma transcriação de um poema de e. e. cummings que tem o mesmo trecho bíblico das pérolas e dos porcos como intertexto. A surpresa serviu para me colocar no devido lugar, ao constatar serem os trabalhos desses dois poetas que tanto admiro bem mais sofisticados que meu poemeto. A seguir, coloco a versão do Augusto de Campos e seus comentários sobre seu processo criativo, além do poema original:



"Pérolas para Cummings" Translation

The poem "pérolas para cummings" (English: pearls for cummings) was written in homage to E. E. Cummings' centenary in 1994. Its language is Portuguese. In the original setting the image of a pearl replaces the letters "o" and (in the last line) the letters "r" and/or "u". Converted into simple types (with an "o" instead of a pearl) it reads:

quem
o
tivo

olev
o
uavi

verj
o
gand

opér
o
lasp

arap
o
ocos

Portuguese: (in conventional form): "Que motivo o levou a viver jogando pérolas para porcos (para poucos)?"

English: "For what reason you passed your life throwing pearls before swine [for the few]?" In Portuguese, the word "porcos" means "swine", and the word "poucos", "the few", so that the changing of just one letter or "pearl" allows the shifting of meaning.

—Augusto de Campos

domingo, 6 de abril de 2008

Contrinatório

a raiz
denuncia
água e terra
fatídicas
medidas

este chão
por um triz
não é via
nem de regra
ou facção

ali se faz
sentida
imperatriz
a guria
Alice mas

ninguém nega
com razão
a extinta
flor-de-lis
que ela entrega

só não quis
serventia
da estrita
devoção
de um país

que dá bom-dia
co’a mão em merda
crônica
pra quem diz
alegria, alegria

terça-feira, 1 de abril de 2008

Invocação

Mote:

Em viagem pro Ceilão
Conheci a musa antiga
Que me rachou a moringa
Com um pau de macarrão

Voltas:

Desde então perdi o prumo,
Minha nau indo sem rumo,
E, sem mais razão, doidinho,
Dou um pulo n’água rindo:

Ai, Tágide sem censura
Vem aqui me dar um banho,
Qu’esta vida cá está suja
Da pureza mui de antanho.

Salga já este corte aberto,
Ô musa, louca varrida.
Canta, rebola e me atiça,
Mas ao fim me bate forte.

domingo, 30 de março de 2008

quadrinha da gata











Minha gata estressada
Tem olhar bola de gude
Quando olha meio de lado
Falo: "Felícia, be good"

  • Imagens: óleos sobre tela de Aldemir Martins - Gato (1982); Gato (1975)

sexta-feira, 28 de março de 2008

bichos da terra II

Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
(Camões)


Ô tatu bola, por que
tu se enrola agora se
já passou a hora
de se entocar?

Esconde-se onde?
redondo ontem
girou pra longe
do seu lugar

lá na panela
nela ferveu
cozeu pinguela
até não mais

carne quebra-dente
doente na pança
pra tarde vingança
ainda que quente

Foi tatu e não
deixou tu de ser
tatu na fuga e
fogo na gamela
e mesmo na goela.
  • foto: espetáculo do Cirque du Soleil em São Paulo