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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CANÇÃO NOTURNA



Girl in a white dress, Lucien Freud, 1947

Naquela manhã de sábado, fora de seu costume, ela sugeriu timidamente um hino durante o louvor — a meia hora de cânticos que mantinha os membros ocupados até o início da sequência litúrgica do culto. O moço que conduzia a música esticou o pescoço, apontando o ouvido, não tinha escutado, a irmã repetisse, por favor, um pouco mais alto. Ela resvalou ligeira e alternadamente as mãos suadas na saia — onde estava o lencinho? —, as mãos úmidas, frias, a ponto de pingar durante o martírio dum trivial cumprimento, quanto mais na insensatez de abrir a boca em público.  Puxou então ar, no afã de a voz lhe sair mais segura, e repetiu "483, Rude Cruz". Num sorriso pronto, recurso de jovem líder, a fim de disfarçar a má vontade com tal canção de ritmo lento, arrastado, o rapaz alisou a gravata puída e soltou "ótima escolha", e ligeiro encontrou a página entre o maço apoiado na estante retrátil. O ruflar das folhas misturou-se ao das asas assustadiças de pombos lá fora. Mas os irmãos tinham que transigir com a lentidão da organista, que molhava o indicador na pontinha da língua e apertava os olhos gastos, caçando a partitura. Não tinha mais ninguém que tocasse instrumento, então era preciso ainda acompanhar os acordes malfeitos, a falta de compasso, as notas intermináveis ao som nasalado e sombrio do órgão elétrico, de algum modo conferir uma réstia de harmonia àquele punhado de vozes que tentavam acompanhar a música canhestra. Irrompia o agudo de algumas senhoras, em ondas de taquara, vozes esganiçadas, contrastando com o murmúrio dos homens, em grave tom abaixo, quando não completamente fora do tom. E Marlene se unia ao lamúrio, a letra de cor, "levarei eu também minha cruz/Té por uma coroa trocar", com o olhar fixo no teto manchado de infiltrações, talvez procurando nos borrões negros, esverdeados, um sinal, a almejada mensagem dos céus de que enfim chegava o momento.

A igrejinha fora erguida em meados da década de 1950, e quase nenhuma mudança desde então. Algumas demãos de tinta, um reparo nos bancos, uns pares de telhas trocadas, o mínimo. No bairro, era apenas mais uma igreja de crente, em meio aos vários salões alugados nos últimos anos pras dezenas de denominações. Não angariavam novos conversos como as outras; faltava o êxtase pentecostal, o frenesi coletivo, a catarse das línguas estranhas e previsíveis, as músicas com clímax subindo de oitava no refrão, repetido como mantra, até o corpo entrar em transe, aquilo que nomeavam a descida do fogo do espírito santo. Não, não, os cultos ali eram moldados em rito discreto, fleuma, améns cadenciados durante as orações, algo de real decoro e do agrado do altíssimo, como se repetia com orgulho solene. Poucos membros, todos pobres, um ou outro remediado, receita exígua com dízimos e ofertas.  Mas ali estava o povo escolhido de Deus; qualquer dificuldade, inclusive a de manter aquele lugar sagrado, não era prova dessa seleção?

Frequentavam a igreja três gerações de fiéis, a maioria com algum grau de parentesco, e geralmente a ascendência determinava a hierarquia de cargos, distribuídos nos chamados ministérios, cada qual com seu respectivo status e autoridade pra repreender qualquer outro irmãozinho que fraquejasse na fé ou se desviasse da conduta rumo à santidade. Ostentava-se nas pregações e pesados estudos bíblicos um orgulho de, num mundo prestes a ter fim, guardarem a verdade, a única a que qualquer indivíduo, não importando raça, nacionalidade, condição econômica, deveria se submeter se quisesse salvar-se da perdição eterna. E ai daqueles não convertidos até o fechamento da porta da graça.

Marlene era uma fiel de berço. A mãe, dona Eurides, exemplo de fervor e rigidez, imprimira na filha única o temor de Deus, antes mesmo que a menininha compreendesse quem ela era. Eram apenas as duas. Não conhecera o pai, e quase nunca a mãe falava sobre ele; quando surgia, por descuido, o nome dele numa conversa, emendava umas frases feitas, "seu finado pai cavou a própria cova, minha filha; não aceitou a mensagem, perdido pra sempre". Ouvia de terceiros, em fiapos de histórias que buscava alinhavar: Romero fora jovem com pose e ares de artista, cantava sob lona de circo, em botecos, figura de animar a noite, sorriso de fazer as meninas cochicharem, alvoroçadas, entre risinhos, reivindicando a exclusividade dos olhos azuis semicerrados. E, entre pares de oferecidas, Eurides como escolha pra morar no aluguel duma casinha de fundos. Onde a mãe o teria conhecido? Como despertara a atenção do rapaz trigueiro? Que artimanhas, segredos de mulher, ela tivera na juventude? Impossível. Não conseguia pensar na mãe como figura sedutora, que exalasse qualquer convite à carne. Pra ela, sempre a imagem sisuda, os lábios finos irremediavelmente rachados, as poucas roupas de tons sóbrios, terrosos, cobrindo todo o corpo; os cabelos, que já lhe deviam chegar quase aos pés, sempre no coque, envolto numa redinha. Mas era fato que, ao lado de Eurides, num ano qualquer, há quase três décadas, Romero parecia ter tomado rumo de homem responsável; deixara pra lá a bobagem de artista, alugara uma portinha comercial onde tocava uma tinturaria, lavando e engomando camisas e ternos de gente importante da cidade. Trabalho de gente honesta, e sem depender de patrão. Porém, o espírito aventureiro, a frustração silenciosa e crescente, mais a bebida, esta sobretudo, o conduziram errante numa noite pela estrada, sem dizer adeus, sem dizer palavra, apenas com a roupa do corpo e o dinheiro das contas que estavam pra vencer. Abandonou Eurides — sabia da gravidez? —, caiu no mundo provavelmente como trovador andarilho, cantando em troca de pouso e copo cheio, até o excesso e a estrada minguarem a voz e, segundo o desfecho da fábula, enterrado na capital.

Não houve outro homem na casa. Quase trinta anos desde a partida daquele que, pra Marlene, não passava duma sombra errática, uma sombra a pairar sobre o conhecimento possível a respeito da mãe, a cristã fervorosa, inclemente, criatura à imagem do deus belicoso do velho testamento. A nova Eurides despontara quando, durante a gravidez, recebeu a visita duma dupla de rapazes de fora que, ao fim de apresentação convincente, ofereceram um livro com promessas de saúde a partir de plantas. Não venderam o livro, mas a presentearam com um outro que narrava em pormenores o fim do mundo, e retornaram diversas vezes até encerrarem um estudo bíblico completo, arrematado com um apelo de conversão. O momento era propício. Uma luta invisível entre o bem e o mal conferia sentido ao sofrimento e à dor do abandono. Eurides veio a batismo e passou a frequentar a igrejinha recém-inaugurada no bairro. Já experiente na fé, membro atuante na comunidade cristã, ela passou a se interessar muito mais pelo poder divino de consumir a fogo todos os ímpios, pândegos, messalinas, sodomitas, escarnecedores, adoradores de Baal, aqueles gentios despudorados pululando ruas, bares, banheiros de rodoviária, esquinas, quartinhos obscuros, ah, porque isso sim era o dever do onipotente, consumir de uma só vez a babugem demoníaca que escorria do mundo, dever que sobrepujava a benevolência, o desperdício de tempo pra buscar ovelha errante, o avilte em festejar um filho pródigo. "Deus não se deixa escarnecer, minha filha; o juízo está próximo". E debaixo daquele teto, na mesma casinha de fundo alugada,  não se devia oferecer oportunidade pra sussurros do satã. Desde o tempo alcançado pela memória, Marlene tinha que pular da cama ainda madrugada pro culto matinal, resistir a uma hora de orações e leitura de capítulos da bíblia, geralmente concluída com recitação do salmo 91, decorado na marra, tantas palavras difíceis, assim que aprendera a ler. E seguia a rotina de serviços domésticos; primeiro deixar pronta a massa pra mãe enrolar os pães e enfiá-los no forno de barro, cuja lenha Marlene providenciava no favor de limpar quintais vizinhos; não entendia por que encerar seis dias por semana o piso de cimento queimado, sem deixar marca sequer; e então levar os pães de encomenda, antes que esfriassem, aos parcos clientes, sobretudo irmãos da igreja sabedores do sustento das duas vindo disso e da roupa que Eurides lavava pra fora. Na volta, sempre havia ainda muito ofício, roupa pra bater e quarar, feijão pra escolher, o rejunte do piso do banheiro em seu labiríntico mosaico de cacos pra arear, aquele tapete de crochê inacabado, as profecias do livro de Daniel, tão difíceis de entrar na cabeça, e muito joelho dobrado, oração, oração, pra afugentar qualquer atiçamento do inimigo, joelho calejado, coração contrito, nunca o suficiente pra merecer a misericórdia divina...

Não faltava, assim, ocupação a Marlene. Aquela casa não era lugar de indolência. Dona Eurides dizia ouvir, por mérito de tempo e devoção, a voz de Deus e, com a autoridade emanada dos céus, repassava à filha os desígnios do todo-poderoso pra vida dela.

E provações ela teria. A pedra de toque fora providenciada pela própria mãe desde a primeira infância: um baú, que ficava aos pés da cama de Eurides e cuja abertura era proibida. Era a árvore da ciência do bem e do mal. Mesmo sabendo que a chave ficava na primeira gaveta da cômoda, Marlene nunca ousou sequer tocar nela. A mãe sempre soube fazer-se temer.

"Escola, hoje em dia, não é lugar pro povo escolhido, Marlene". Afinal de contas, tudo de que ela precisava pra levar uma vida de fé e retidão, a mãe podia ensinar. A menina então conseguira decodificar as primeiras palavras sob o estímulo duma varinha de bambu, que assobiava na direção das pernas ao confundir, envergonhada de antemão, uma ou outra sílaba. Tão logo pôde converter as letrinhas miúdas dos versículos bíblicos em sons articulados, dona Eurides definiu as quantidades diárias, que a levariam a concluir todos os livros da escritura sagrada em um ano. Sem contar o punhado de salmos que deveriam ser entoados de cor, a qualquer momento, quando a mãe, de súbito, exigisse.

A rua, Marlene a ganhava apenas com finalidade bem clara, no trajeto até a igreja ou por força das obrigações diárias, tão somente o tempo de entregar os pães ou de providenciar a listinha de compras na mercearia. Esse alheamento, a estranheza da mocinha de passo ligeiro, sempre de saia até os tornozelos, cabelos chegando à cintura, instigava na molecada da rua uma necessidade premente de provocar, de segui-la pelo sempre mesmo trajeto, "creeente da bunda queeente", e diante da postura impassível, alguns meninos atentados corriam ao seu redor, esforçando-se em caretas, dedos médios em riste, soltando arrotos seguidos de gargalhadas. Nesses momentos ela pescava em silêncio versículos, "no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo", palavras que lhe garantissem tratar-se de uma afronta invisível, demônios que usavam aquelas crianças pra estremecer uma serva de Deus, testar a força de sua fé, mas ela inabalável, em silêncio altivo, cingida da armadura do senhor dos exércitos, em batalha contra potestades caídas.

As provações da adolescência foram vencidas. Agora, sobrava apenas o desprezo dos vizinhos, que também tinham crescido, e alguns até mesmo engrossavam alguma igrejinha pentecostal pelas redondezas. Marlene era então a solteirona de respeito, vivendo com a mãe.

Ah, mas há caminhos que parecem direitos, e, ao fim, são trilhas de danação. Que força insondável a teria conduzido, num fim de tarde, voltando da mercearia com anil, fermento e sabão em pedra, desviando-se do percurso habitual pra atravessar em atalho o terreno baldio? Sob um por do sol de laranjas e vermelhos, os timinhos do bairro pelejando na várzea. Ela estacou debaixo da sibipiruna, subitamente cativa à visão do movimento de corpos masculinos na diligência malandra pelo domínio duma bola, divididos entre sem e com camisa, e tantas pernas à mostra, volumes entrevistos sob os calções, as nádegas absurdas e tão rijas dum mulato, troncos banhados em suor refletindo contração de músculos, corridas desembaladas de rompante, "marca o cara aí, porra!", um quadril em ginga de vai-não-vai, gritos imponderados, virilidade gratuita, "volta, volta, caralho", como podia aquele rapazinho esguio correr tanto, tanto, sem descuidar da bola a seus pés?, a bola desenhando uma parábola, saltos em sincronia, ombro a ombro, nos limites do retângulo a cal, um salto se destacava, pescoço e cabeça como chicote, a bola desviada com violência de seu curso, a bola passando pelas traves de bambu, "goooool", os sem camisa agora em abraço despudorado, o cabeceador atracado ao magrelo, rolando lascivos na terra batida, um grandalhão enchia a mão com o orgulho dentre as pernas e, sacudindo raivoso, num berro rouco e grosso, "chupa isso aqui, seus fila da puta". Foi então que a estridência dum casal de quero-queros a tirou do estado de entorpecimento em que caíra, "meu senhor, o que to fazendo aqui?", e abalou-se pra casa, com as pernas titubeantes, as mãos trêmulas a segurar com dificuldade a sacola, ondas de achaque assolando o corpo de cima a baixo.

Marlene não era tão tola a ponto de desconhecer os efeitos daquele emaranhado de sensações. Mas o vocabulário que acessava pra dar sentido àquilo lhe provocava terror: concupiscência da carne, lascívia, devassidão. Chegou em casa e correu ao forno à lenha. Havia ali os restos da última fornada de pão. Logo estava coberta de cinzas e as esfregava nos longos cabelos desgrenhados, e não demorou a encher a boca com um punhado, que lhe provocou um vômito ruidoso, dolorido e necessário.

Sim, a mãe estava certa. Era preciso afastar-se do mundo, da babilônia decaída, gastar o corpo no trabalho árduo, sem reservas, e, a todo momento, vigiar e orar, fechando qualquer fresta aos vapores quentes e furtivos do demônio. Só assim haveria paz. Só assim poderia viver na presença da mãe.

Passados meses, Marlene não duvidava mais: tomara o rumo da santidade. A rotina era chão firme. O isolamento, mesmo em meio aos cultos na igreja, era o único caminho para a iluminação. Evitava as rodinhas animadas na porta do templo, não reparava que muitas crianças um dia embaladas em seu colo agora já formavam casais lépidos, cheios de planos. Estava ali para humilhar-se diante da presença de Deus. Estava ali para reafirmar sua pequenez, sua insignificância de mulher vil e pecadora, rogando misericórdia ao Deus de Abraão, Jacó e Isaque.

Mas quando nada acontece, e o tempo se esvai à larga, é de se esperar o golpe repentino das circunstâncias.

Quem quebrou a rotina foi a própria mãe, Eurides. Ela, o relógio da casa, um dia deu de não levantar antes do sol. Marlene dormia num colchonete na sala, preferia deixar o quarto pra mãe, e naquela manhã estranhou: abriu os olhos e a porta continuava fechada, a casa ainda em silêncio, apenas os rumores de fora, pardais e bem-te-vis, um ônibus ganhando a rua, o chiado de vozes no rádio valvulado do vizinho. Não teve coragem de bater na porta, foi fazer o de costume. Cumpriu as orações e leituras matinais. Ajeitou a mesa, preparou o chá de cidreira, tirou as torradas de sempre do pote, e nada de dona Eurides levantar. Foi até o canto de fora onde ficava a janela, pisou as plantas do canteirinho, encostou orelha na veneziana, tudo em silêncio. Voltou à porta, olhou pelo buraco da fechadura, a luz apagada. Decidiu ajeitar a lenha no forno e já tocar fogo pra adiantar o trabalho. 7 horas, e a mãe no quarto. Tinha que entrar. Mas não ousava. Estacou novamente na porta e, passado o tempo suficiente pra sentir as gotas de suor pingando das mãos, admitiu três batidas leves. Sem resposta. Quando, num ímpeto, juntou coragem e apanhou a maçaneta, ouviu o grito de voz áspera e familiar, "Marleeeene".

Na penumbra, Marlene procurou o interruptor pera e clicou. Não se lembrava de ter visto a mãe de cabelos soltos e com roupa de dormir, uma camisola cuja cor original ninguém saberia dizer. Eurides estava sentada no meio da cama, de ombros curvados, braços estendidos sobre as pernas. Ao fitar os olhos da mãe, Marlene encontrou-os desorbitados, estrábicos, bem diferentes dos olhinhos sempre incisivos e inquiridores. Um odor ácido e profundo tomava o ambiente. A roda mais escura no lençol, ao redor da mãe, denunciava urina matinal empapando a cama. Sem tempo de refletir sobre os estímulos sombrios que os sentidos lhe traziam, Marlene ouviu uma ordem, "Me traz um ovo cozido. Já!".

E Eurides não deixou mais o quarto, nem mesmo a cama. Às oito da manhã, ao meio-dia e às seis da tarde, do quarto a mãe gritava ovos cozidos e um copo d'água. Mais tarde, por volta das nove da noite, ela exigia leite adoçado com açúcar queimado, e só. Não adiantava trazer outro prato separado com a comida. E apenas as gemas dos ovos ela comia.

Ainda no primeiro dia, Marlene teve coragem de perguntar, "Mãe, a senhora tá se sentindo bem?", "Cala essa tua boca maldita, sua filha de Jezabel! Tu não vai corromper este lugar santo!". Aturdida pelos gritos, Marlene correu da presença materna e tapou os ouvidos pra não ouvir o restante das imprecações.

Tacitamente, outra rotina foi estabelecida. A filha entrava, absorta como num serviço litúrgico, pra trazer as refeições e esvaziar as excretas da comadre, colocada ao lado da cama. Não se podia abrir janela nem trocar roupa de cama. Os gritos de ameaça da mãe irrompiam duma insensatez que também impõe respeito. Eurides não visitou mais o banheiro ou sequer trocou a camisola rota. A fetidez pronto tomou conta do lugar. Durante o dia longos monólogos ponteados por gritos se dissipavam do quarto pela casa. Na madrugada, Marlene, encolhida no colchonete, passou a ouvir a mãe entoar melodias desconhecidas:

Tinha rendas de Sevilha
A pequena maravilha
Que o teu corpinho abrigava
E eu, eu era o dono de tudo,
Do divino conteúdo
Que a camisola ocultava.

Era certo que logo gente bisbilhoteira viria pra sujar o sossego obtido, ao longo dos anos, com o desinteresse alheio. Já fazia mais de duas semanas o princípio da condição especial de dona Eurides. Primeira vez em anos que faltavam aos cultos. Algum irmão de fé mais antigo, mais por costume que por real interesse, proporia uma visita pra tomar motivos da ausência. Os vizinhos, também, mesmo que indiferentes às duas, teriam a curiosidade atiçada — o sumiço da crente rabugenta, algum pedaço de grito que sobrepujasse a melopeia intermitente de tevês e rádios.

Marlene manteve a entrega dos pães e, taciturna, demonstrando não querer conversa, dizia aos clientes que a mãe estava de repouso pra curar gripe forte. Dona Eurides não gritava mais. Agora resmungava, numa cantilena renitente, pontuada de gemidos graves, que lhe saíam da boca como o ranger duma porta emperrada há muito. Durante a noite, em vozinha afinada, aguda, mas discreta como nunca dantes a filha ouvira, Eurides entoava as canções desconhecidas. Marlene, atraída por uma recordação que não era sua, mas que lhe embalava como um mimo familiar, passou a ouvir atenta, noite após noite, aproximando o colchonete da porta do quarto.

Boneca de trapo, pedaço da vida
Que vive perdida no mundo a rolar
Farrapo de gente que inconsciente
Peca só por prazer, vive para pecar

E foi no meio dessa canção que, numa madrugada absurda de clara, Marlene pegou a tesoura da caixa de costura e, sem olhar espelho, podou sem melindre os longos cabelos, até deixar a nuca à mostra. Em passos leves, ela entrou no quarto, resgatou o baú, enquanto a mãe, um espectro estendido na cama, repetia a canção, como se sua existência se resumisse a uma voz a emitir em letra e melodia uma mensagem que só cabia a Marlene decifrar. Com a chave em mãos, ela ajoelhou-se diante do baú. Ali tão somente uma camisola de renda. Não. Era a camisola guardada para ela, Marlene. Não era uma camisola. Um vestido pra noite. Como já tinha visto em mocinhas lépidas do bairro, nas noites de sexta e sábado, vestidas em tecidos leves que convidam a adivinhar a textura da pele, que profetizam o desejo de despir pra consumar de vez o corpo. Marlene despiu-se pra colocar o vestido. Sentiu-se cobiçada por olhos atrás das paredes. Eurides continuava outra estrofe:

Boneca noturna que gosta da lua
Que é fã das estrelas e adora o luar
Que sai pela noite e amanhece na rua
E há muito não sabe o que é luz solar

Marlene deixou o quarto e fechou a porta. Ao fundo, um fiapo de melodia abafada, ouvida pela última vez enquanto vivesse. Com os trocados que juntou desde aquela manhã inusitada, compraria uma passagem para a capital ou, se não desse, para a cidade mais próxima dela que a grana permitisse. Quem sabe se, nos arredores da rodoviária, não levantava mais uns bons trocados? Quem sabe se, na grande cidade, num inferninho qualquer, não encontrava o cantor boêmio que assoprara as canções da noite nos ouvidos da mãe?

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