segunda-feira, 7 de abril de 2008

pérolas aos porcos

Lá pelos idos de 1998, quando ainda morava em Sertãozinho, estava numa tarde a ler o evangelho de Mateus quando parei no versículo dum discurso de Jesus em que se encontram essas palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos estraçalhem”. Fiquei vidrado na imagem dos porcos e das pérolas e, por motivos que não se explicam, comecei a esboçar uns versos que dialogaram com o “Autopsicografia” de Pessoa. O poeminha, meio manco, ficou assim:

Os porcos bem sabem o que
fazer com as pérolas. Eu

sinceramente não o sei,
mas sei que não vou chafurdar.

Vivo a fazer de versos um colar
para nunca me caber no pescoço.

Moço, quando você vai aceitar
que viver assim é um triplo desgosto?

Fingir o que sente e também
senti-lo pra ser não mais que vintém,

vitrine das jóias de porcos,
seu malfadado artesão do mau gosto!


Alguns anos depois, talvez 2002, vasculhando trabalhos de tradução de poesia, tive a surpresa de encontrar no site do Augusto de Campos uma transcriação de um poema de e. e. cummings que tem o mesmo trecho bíblico das pérolas e dos porcos como intertexto. A surpresa serviu para me colocar no devido lugar, ao constatar serem os trabalhos desses dois poetas que tanto admiro bem mais sofisticados que meu poemeto. A seguir, coloco a versão do Augusto de Campos e seus comentários sobre seu processo criativo, além do poema original:



"Pérolas para Cummings" Translation

The poem "pérolas para cummings" (English: pearls for cummings) was written in homage to E. E. Cummings' centenary in 1994. Its language is Portuguese. In the original setting the image of a pearl replaces the letters "o" and (in the last line) the letters "r" and/or "u". Converted into simple types (with an "o" instead of a pearl) it reads:

quem
o
tivo

olev
o
uavi

verj
o
gand

opér
o
lasp

arap
o
ocos

Portuguese: (in conventional form): "Que motivo o levou a viver jogando pérolas para porcos (para poucos)?"

English: "For what reason you passed your life throwing pearls before swine [for the few]?" In Portuguese, the word "porcos" means "swine", and the word "poucos", "the few", so that the changing of just one letter or "pearl" allows the shifting of meaning.

—Augusto de Campos

domingo, 6 de abril de 2008

Contrinatório

a raiz
denuncia
água e terra
fatídicas
medidas

este chão
por um triz
não é via
nem de regra
ou facção

ali se faz
sentida
imperatriz
a guria
Alice mas

ninguém nega
com razão
a extinta
flor-de-lis
que ela entrega

só não quis
serventia
da estrita
devoção
de um país

que dá bom-dia
co’a mão em merda
crônica
pra quem diz
alegria, alegria

terça-feira, 1 de abril de 2008

Invocação

Mote:

Em viagem pro Ceilão
Conheci a musa antiga
Que me rachou a moringa
Com um pau de macarrão

Voltas:

Desde então perdi o prumo,
Minha nau indo sem rumo,
E, sem mais razão, doidinho,
Dou um pulo n’água rindo:

Ai, Tágide sem censura
Vem aqui me dar um banho,
Qu’esta vida cá está suja
Da pureza mui de antanho.

Salga já este corte aberto,
Ô musa, louca varrida.
Canta, rebola e me atiça,
Mas ao fim me bate forte.

domingo, 30 de março de 2008

quadrinha da gata











Minha gata estressada
Tem olhar bola de gude
Quando olha meio de lado
Falo: "Felícia, be good"

  • Imagens: óleos sobre tela de Aldemir Martins - Gato (1982); Gato (1975)

sexta-feira, 28 de março de 2008

bichos da terra II

Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
(Camões)


Ô tatu bola, por que
tu se enrola agora se
já passou a hora
de se entocar?

Esconde-se onde?
redondo ontem
girou pra longe
do seu lugar

lá na panela
nela ferveu
cozeu pinguela
até não mais

carne quebra-dente
doente na pança
pra tarde vingança
ainda que quente

Foi tatu e não
deixou tu de ser
tatu na fuga e
fogo na gamela
e mesmo na goela.
  • foto: espetáculo do Cirque du Soleil em São Paulo

quinta-feira, 27 de março de 2008

bichos da terra I

as Estrelas e o Fado sempre fero,
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

(Camões)

se você fosse uma minhoca
em brejo qualquer de encontrar
de barro úmido e pastoso seu
tudo, seu mundo, escorregando
túneis imprecisos, sem pressa.

se você fosse uma minhoca
caminho de anéis encarnados aqui
e ali minhocando destino
de osso lavrado em desatino
desdentado de geofagia.

se você fosse uma minhoca
genealogia geral de unigenitores, terrígeno gerador de indiferentes
semelhanças, gerações perpétuas
de individualidade genérica.



se você for uma minhoca
termina
onde nunca deixou de ser
começo
além de pó,
nada conhece
enterrada em vida, nunca
terá da morte
sentença.

fotos: instalação de Eduardo Frota (2001)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Companhia Os Vigaristas

Em boa hora me chegou o convite para participar de um recém-nascido grupo de teatro, fruto do empenho de um também novo amigo, Samir Landin. Foi por intermédio do companheiro de trabalho (além de amigo e provocador) Alexandre Martins que acabei me envolvendo nos planos d'Os Vigaristas. Agora a quadrilha está realmente formada e empenhada no primeiro crime de montar uma esquete para o Festival Curta Teatro, a ser realizado em abril em São José do Rio Preto. Do grupo já participava meu ex-aluno Daniel Carvalho, um cara que sempre demonstrou energia e disposição para ações culturais.
A esquete tem texto do Samir e se intitula Monólogo de Dois. Uma situação corriqueira, dois sujeitos esperando num ponto de ônibus, é o mote para uma rápida e ácida investigação sobre a (im)possibilidade de comunicação na realidade urbana. A violência e a banalização da vida representadas hiperbolicamente tendem a provocar o riso tenso na medida em que se toma consciência da degradação das relações humanas nessa realidade.
Apesar do pouco tempo para ensaio, tendo em vista os compromissos de trabalho dos integrantes, esse projeto despretensioso tem sido levado avante com dois ingredientes essenciais: vontade e prazer.